As nossas imersões acabaram na semana passada e eu sei que já estamos no processo de concepção do nosso produto. Mas hoje eu gostaria de falar sobre uma imersão, especificamente, desta última semana. O dia em que saí com o repórter de polícia do CORREIO, Bruno Wendel. Ainda está em tempo e o que vou falar aqui serve para qualquer um que queira dedicar toda uma vida ao jornalismo ou se interesse pelo assunto.
Eu estava ansiosa e eufórica para sentir a adrenalina de acompanhá-lo num caso emblemático. Adoro pautas investigativas que são agitadas e/ou polêmicas. O caso que presenciei, apesar de muito triste, me proporcionou uma experiência extremamente significativa e enriquecedora – não só como futura jornalista, mas como ser humano mesmo.
O caso que fomos apurar tratava do assassinato de Jonas Ribeiro dos Santos Neto, 17, que morava na região de Planeta dos Macacos, em São Cristóvão. No dia 15 de dezembro, o adolescente pegou um ônibus em Itapuã, por volta das 22h, quando saiu de uma festa de aniversário, com destino à sua residência. No entanto, ao longo do trajeto, ele cochilou e perdeu o ponto, indo parar nas proximidades do Conjunto Bosque das Bromélias, no bairro Jardim das Margaridas – que fica próximo a São Cristóvão.
De acordo com o depoimento de familiares, o jovem foi retirado do ônibus por um grupo quando chegou nesta região. Moradores do Planeta dos Macacos afirmam que a facção criminosa Bonde do Maluco (BDM) é responsável pelo assassinato do estudante, uma vez que o local onde o estudante morava é comandado por um grupo rival do BDM, o Comando da Paz (CP).
Segundo a polícia, o adolescente foi assassinado a tiros e facadas. O corpo foi encontrado já em estado de decomposição, com pés e mãos amarrados, dentro do porta-malas de um Fiat Palio branco, 20 dias após o desaparecimento. O veículo foi deixado a um quarteirão da casa da família. A polícia ainda investiga a autoria e a motivação do crime.
O jornal já havia falado sobre o caso, mas Bruno foi em busca de mais depoimentos e informações da família e de moradores da região. Primeiro, fomos ao Instituto Médico Legal (IML), pensando que poderíamos encontrar os familiares de Jonas, uma vez que um corpo recentemente encontrado poderia ser o dele. Entretanto, o laudo da perícia ainda não tinha ficado pronto e eles não estavam lá. Na verdade, encontramos outra história sobre um assassinato que também rendeu matéria para o jornal (mas isso fica para uma outra hora).
Após a ida ao IML, fomos ao Bosque das Bromélias, local onde Jonas foi retirado do ônibus, em busca de depoimentos de moradores da região. Todos demonstraram receio em comentar o caso e acabaram não dando informações concretas. Em seguida, chegamos à região do Planeta dos Macacos e batemos na porta da família do jovem. Fomos recebidos para uma difícil conversa com a mãe, Tânia Ataíde, 52.
Mesmo que um jornalista tenha mil anos de caminhada, creio que ele nunca vai se acostumar com situações como essa. Eu até achei que eles poderiam considerar “normal” lidar com histórias assim. Mas, depois da experiência com Bruno nesse dia, tive a certeza de que o buraco é bem mais embaixo.
Não dá pra achar tudo isso normal. O próprio repórter disse, enfaticamente, que todo dia é uma história mais macabra que a outra e que é impossível se acostumar. Eu o questionei a respeito quando estávamos no IML. E tive mais certeza ainda quando chegamos para entrevistar Tânia, a mãe de Jonas. Eu já estava desconcertada desde o momento em que soube que essa seria a pauta e Bruno, no momento da conversa, também demonstrou embaraço – não com atitude de quem não sabia o que estava fazendo, mas um embaraço natural e involuntário vide a complexidade do caso.
Eu fiz questão de observar cada movimento e cada fala dele. Foi difícil iniciar a conversa com Tânia, tanto que mencionou que “não sabia nem por onde começar”. Mas, de forma cuidadosa, ele pediu para que a mãe de Jonas contasse um pouco da história e dos passos do filho até o momento do desaparecimento. Foi deixando o diálogo fluir e não gravou a entrevista, apenas anotava os pontos principais e as aspas mais importantes. Bruno respeitou os momentos de pausa e de lágrimas de dona Tânia (isso acontecia sempre que ela se dava conta da realidade dos fatos, à medida que ia falando). Por fim, ele a confortou, deu-lhe um abraço e pediu desculpas, para ela e todo o restante da família, por fazer com que eles revivessem todo o momento de tristeza.
Essa experiência me fez refletir bastante a respeito do “ser jornalista”, da nobreza da profissão, da quantidade de responsabilidade que gira em torno do cara ou da moça da informação, de como podemos nos tornar seres humanos melhores ao longo do fazer jornalístico e como a empatia feminina entra nisso tudo.
Responsabilidade em ser jornalista
A conversa com a mãe de Jonas fez uma reflexão pulsar ainda mais forte na minha cabeça: a responsabilidade que envolve a profissão de jornalista. Se formos parar pra pensar, Tânia e todo o restante da família nos receberam no momento de maior dor da vida deles. Nós estivemos frente a frente, sentados no sofá da sala, fazendo-os reviver acontecimentos extremamente difíceis.
Ser jornalista não é para todo mundo. Nem todos poderiam estar sentados naquele sofá. É preciso ter empatia, sensibilidade, compaixão, e menos frieza. Estávamos ali para escarafunchar uma história tão dolorosa diretamente com a família de Jonas. Não éramos psicólogos, terapeutas ou qualquer outro profissional que pudesse acalentá-los de alguma forma. Éramos “apenas” (não interpretem com um sentido depreciativo) jornalistas. E nós fomos recebidos, tratados com muita educação e carinho, apesar de toda a dor.
Por isso, mais uma vez eu repito: nem todo mundo tem o perfil para exercer essa profissão (e não falo isso com arrogância ou ar de superioridade). Jornalismo é vocação e requer sangue frio na hora de lidar com situações como essa – da mesma foram que um médico, por exemplo. A responsabilidade está em lidar com a fonte, mais especificamente com uma mãe que perdeu seu filho tão cruelmente, e na sensibilidade em repassar a informação. Não é pouca coisa, meus amigos! Não basta colocar as aspas ditas por aquela mãe. É preciso ter empatia nos dedos para bater uma matéria tão delicada.
Um ser humano melhor
Para além de toda essa responsabilidade, a experiência com a família de Jonas me fez estar ainda mais atenta para algo que eu já pensava: se um jornalista não se tornar pelo menos 0,1% melhor, como ser humano, pode desistir dessa vida e reencarnar na próxima.
Nós estamos diante de realidades tão diversas a todo instante. Nos deparamos com dificuldades, perrengues, sofrimentos e dores que nem sabemos que poderiam existir. A imparcialidade não pode ser confundida com a insensibilidade e a frieza. Creio que, ao longo do tempo, o jornalista não deve se acostumar e achar “normal” deparar-se com situações como a de Tânia.
É preciso se indignar mesmo, é preciso pensar em soluções ou em maneiras de denunciar problemas, ou, pelo menos, de dar visibilidade às vidas de quem não é visível. Ser jornalista é ser nobre, é ser grato por conviver com pessoas nas suas mais diversas realidades. Ser jornalista é ser grande como ser humano, é saber que você é privilegiado e tem a oportunidade de se tornar cada vez melhor.
A conexão feminina
Por fim, eu gostaria de destacar algo que se repetiu em umas três ou quatro imersões. Necessariamente, no dia em que saí com Bruno Wendel. Conversamos com duas mulheres mães: Tânia, a mãe de Jonas, e uma outra senhora que havia perdido o filho, também assassinado – este foi o caso do IML que apenas citei lá no começo do texto.
Trata-se da conexão feminina que une as mulheres naturalmente. Eu não sei se alguma outra jornalista tenha passado por isso em algum momento da vida e concorde comigo. Nas duas entrevistas que acompanhei com Bruno, apenas observei e achei melhor não perguntar nem dizer nada – tendo em vista a complexidade dos casos. Bruno conversava, fazia as perguntas, mas as respostas e a direção do olhar eram voltadas, quase sempre, para mim. E atribuo isso por eu ser mulher.
Falo por mim, mas creio que acontece com a maioria das outras mulheres também: é reconfortante nos depararmos com uma pessoa do sexo feminino quando estamos passando por um momento difícil. E foi o que essas mães demonstraram durante as entrevistas. Talvez elas achassem que eu poderia entender a dor delas melhor do que Bruno. Talvez elas enxergassem em mim a sensibilidade e a empatia que nós mulheres temos com o intuito de se sentir mais reconfortada. E foi extremamente curioso perceber isso!
Sobre Bruno Wendel
Antes de acabar esse textão, gostaria de falar sobre Bruno Wendel. Deus é top e ele também. Este é o repórter que descobriu o caso Geovane. No dia 13 de agosto de 2014, o CORREIO divulgou reportagem de Bruno noticiando o desaparecimento de Geovane Mascarenhas de Santana, 22.
Após uma abordagem arbitrária da polícia, o jovem foi colocado dentro de uma viatura, no bairro da Calçada. No entanto, dois dias após a publicação da matéria, o corpo de Geovane foi encontrado carbonizado. A perícia constatou que ele foi morto por decapitação e, em seguida, queimado. Meses depois, o Ministério Público do Estado da Bahia denunciou 11 policiais por homicídio, sequestro e ocultação de cadáver.
Em 2015, Bruno Wendel ganhou o Prêmio OAB de Jornalismo Barbosa Lima Sobrinho, na categoria Imprensa Escrita. O repórter se destacou com a série de reportagens “Onde está Geovane”, também indicada ao Prêmio ExxonMobil de Jornalismo – antigo prêmio Esso. Por conta da premiação obtida, Bruno ganhou também a placa Jorge Calmon, em homenagem ao jornalista e advogado.
A história de Geovane, inclusive, acabou virando filme. O cineasta francês Bernard Attal, que mora em Salvador há 13 anos, produziu o documentário “Sem Descanso” – exibido pela primeira vez no dia 17 de novembro de 2018, no Espaço Itaú Glauber Rocha. O filme concorre ao prêmio de melhor longa-metragem nacional do Panorama Internacional Coisa de Cinema – mais importante festival de cinema da Bahia.