Plantão, viradão

Plantão, viradão

Foto: Carla Galrão/CORREIO

Para os adolescentes uma das perguntas mais temidas é a boa e velha ‘o que você quer ser quando crescer?’. Também, pudera, muito cruel exigir que, aos 17 anos, a gente escolha o caminho que vai seguir a vida toda. Naquela época escolhi o Direito – ainda bem que os erros têm conserto e cá estamos. Desde lá, porém, para mim ser jornalista já era uma opção. Eu queria ser jornalista porque amava ler e escrever. Porque amava música, teatro, cinema, e os jornalistas, afinal, escrevem sobre tudo isso também. Eu queria ser jornalista porque adorava ouvir e contar histórias. Os motivos eram vários mas, em momento algum, ao pesar os prós e contras, passaram pela minha cabeça de vestibulando os plantões. Plantão para mim era coisa de médico.

Pois bem, anos depois aqui estou eu, no Correio de Futuro, e o plantão chegou. Confesso que, depois de uma semana de folga aproveitando o Natal com a família, não era a ideia mais animadora do mundo passar o Réveillon trabalhando. Para você que não sabe, na época de festas o jornal se divide em duas equipes. Quem trabalha no Natal, folga no Ano Novo e vice-versa. As notícias, meu amigo leitor, não tiram folga. Nós, futuros, também fomos divididos em dois grupos. Quando a primeira escala chegou, vi que estaria na editoria Minha Bahia nesse período, e que um futuro estaria em Sua Diversão – a editoria de cultura. Cheguei a conversar com Carlos para saber se ele se importaria em trocar comigo, mas depois desisti. Resolvi me entregar nas mãos do destino. Que decisão acertada.

Foi Minha Bahia – a editoria de cidade – que ficou responsável pela cobertura do Festival Virada, “o maior Réveillon do Brasil”, como diz o slogan. E foi para lá que eu fui. Acho que dos futuros que trabalharam no Ano Novo, a minha escala foi a mais cheia de adrenalina.

Dos cinco dias em que fiquei de plantão, em quatro estive na festa da Prefeitura. Responsável, sempre em dupla com um repórter, pela cobertura da metade final dos shows. Ai amigos, uma cacetada de primeiras vezes e eu me senti de novo como aquele adolescente, do início do texto. Nervoso, com frio na barriga, como quando a gente tá começando a ir nesses shows, se interessa por alguém, mas não sabe como chegar para conversar. Era assim. Mas ao invés da paquera o objetivo era a entrevista. Jogado em um mar de gente, sozinho enquanto a minha dupla de cada dia cobria as coletivas dos artistas, pescar os melhores personagens, abordá-los, e da conversa com eles tirar boas histórias que contassem a festa. Em uns cinco minutos o tic tac do relógio (e a pressão da gráfica) mandaram embora o adolescente.

Um pouco da estrutura montada para a imprensa no Festival, e da loucura das coletivas

Um pouco da estrutura montada para a imprensa no Festival, e da loucura das coletivas

Segundo dia, e eu estava lá aprendendo a lidar com o assédio dos fãs – não meus, dos artistas – que achavam que eu era o melhor amigo do Luan Santana ou o sobrinho do Zezé di Camargo e poderia levá-los aos seus ídolos. Nesse dia, uma alteração na ordem das coisas fez com que uma coletiva – a de Luan Santana – acontecesse não durante o show anterior, mas durante uma troca de palco e eu pude acompanhar, então, o assédio dos jornalistas e fotógrafos sempre em busca da melhor foto ou da informação mais quente.

Dia três, e o desafio era escrever um perfil da vovó que havia dançado no palco com La Fúria. No aperto da multidão, lutando contra os vários decibéis das caixas de som, entrevista e texto escrito e publicado em apenas 30 minutos. No último dia, enquanto Daniela subia ao palco da sua arena, eu já estava me sentindo um expert em coberturas.

Que sufoco! Que equipe! Que duplas! (Victor Lahiri, Júlia Vigné e Thais Borges, obrigado!). Que delicia! Eram pelo menos 12 pessoas varando a madrugada pra fazer o jornal acontecer. Repórteres, estagiários (oi!), editores, marketing, equipe de redes sociais, na rua e na redação, com os dedos nervosos, escrevendo tudo ‘pra ontem’, do celular mesmo, rápido, agora. Uma estrutura montada no evento com laptops e sala de imprensa para uma festa que queria virar notícia. E virou! Eu mesmo escrevi. E foi incrível experimentar a adrenalina de um trabalho que, mais do que nunca, precisa ser feito rápido. Pela rapidez parece que o que escrevemos é material apenas para internet mas, no dia seguinte, vemos o trabalho feito a tantas mãos virar notícia no papel. É amigos, pesados os prós e contras, apesar do cansaço e da falta de horas de sono, pelo menos nessa primeira experiência o plantão saiu com saldo positivo. Foi, definitivamente, o Réveillon mais inusitado da minha vida.

Morreu!

Apenas um pequeno e último registro sobre o dia “calmo” de plantão. Voltamos ao trabalho dia 27 de dezembro. Um dia calmo, ou deveria. Ainda não tinha festival. Estava eu lá escrevendo matéria sobre a saída das pessoas da cidade quando de repente: ‘ela morreu”, grita uma repórter. Ela tinha acabado de ver uma notícia na internet. Mãe Stella de Oxóssi tinha falecido. E tudo mudou. Instantaneamente ninguém mais pertencia aos seus trabalhos cadernos e editorias comuns. Eram quase 17h e no outro dia Mãe Stella era a capa do jornal com dois grandes textos dentro. Eu, que já estava indo embora, não vivi tanto a mudança. Mas não posso deixar de registrar como o jornal se move, feito o organismo vivo que é, para  se adaptar ao mundo lá fora.

Querido leitor, desculpe o tamanho do texto. Mas me disseram que plantões costumam ser agitados. Há muito o que contar.