Orgulho? Nunca nem vi

Orgulho? Nunca nem vi

Engasgo com o orgulho!

Na última semana, ocorreu um fato inédito na minha (curta) trajetória de estudante de Jornalismo e repórter estagiária do CORREIO/Correio de Futuro. Um fato que me fez refletir sobre as concessões (além das frustrações) que os profissionais da redação precisam fazer para conseguir uma matéria decente. É preciso abrir mão do orgulho ou do ego infladinho, que porventura podem nos envolver.

Precisava finalizar uma matéria que sairá neste domingo (13) – a propósito, comprem o jornal para me prestigiar rs – e, para isso, necessitava de uma fonte com uma vivência relativamente importante para a construção do texto. Entrei em contato pouco antes do recesso de Ano Novo, por e-mail, e ela me respondeu explicando que estava longe de Salvador e com uma péssima conexão, mas que voltaria para a capital em poucos dias. Até me mandou o número do seu celular.

Na volta do recesso, estive com outras prioridades e deixei a matéria em stand by, já que poderia esperar, e ainda não havia entrado em contato com a tal fonte. Um dia depois, recebi um outro e-mail dela dizendo que já estava na cidade e que eu poderia ligar (mesmo tendo dito isso lá no primeiro e-mail). Pensei: “A pessoa tá querendo falar, né? Parece bastante interessada”. Divagações que me deixaram feliz… “Esta fonte importante pelo menos já tá garantida”, pensei comigo.

Ledo engano, queridos. Assim que voltei para a matéria, com o intuito de terminá-la logo, liguei para a bendita fonte. Bem simpática, me apresentei, relembrei-a sobre o e-mail enviado e o que eu gostaria de saber com a entrevista. Não devo dar spoiler, mas posso dizer que a pauta era sobre algo “light”, voltada para lazer e comportamento, inclusive, e nem sequer beirava um tema espinhoso ou comprometedor. Apenas gostaria de conhecer a experiência da fonte com uma prática esportiva.

Após a apresentação e a explicação da pauta, ela me pergunta: “Você vai usar as minhas aspas?”. Por dentro, pensei, com uma certa indignação (confesso): “Lógico! Eu estou te entrevistando pra isso!”. Mas, pleníssima, falei que sim… que contaria um pouco da história dela e complementaria com falas diretas mais interessantes. Ela então falou: “se for para colocar as minhas aspas, eu quero que você me mande antes de publicar ou prefiro não dar entrevista”. Minha vontade era perguntar (com raiva!) por que ela respondeu o meu e-mail (duas vezes, vale ressaltar), demonstrando interesse e sem impor condições, uma vez que estava “cheia de dedos” para falar comigo. Mas respirei a paz e disse que essa prática ia de encontro à ética profissional do jornalista e que desta forma não seria possível. Pois bem. Para resumir: eu desliguei o telefone sem uma palavra escrita a respeito da vivência da fonte. Não teve entrevista!

Fui relatar o ocorrido ao editor e ele disse que eu deveria entrar em contato novamente com a fonte tendo em vista que ele permitiria o envio das falas para que ela conferisse. Gente, no mesmo momento me perguntei: “eu, orgulhosa que sou, vou ter que correr atrás dessa pessoa de novo? Depois de ela ter me ‘esnobado’?”.

Confesso que na vida pessoal dificilmente eu iria atrás da criatura mais uma vez. Para além disso, eu odeio pedir ou insistir qualquer coisa que seja com alguém. Me sinto inconveniente e incomodada com o fato de ter que me “arrastar” para conseguir algo. No entanto, se tratando da esfera profissional, percebi de cara que eu deveria “colocar o rabinho entre as pernas”, me engasgar com o orgulho e correr atrás da fonte.

Fiz isso. Sugeri até que ela me respondesse por e-mail, já que as respostas dadas ficariam ali registradas e nada diferente ou além do que ela me respondesse seria colocado na matéria. A bendita me respondeu prontamente e a reportagem ficou prontinha.

No mais, eu tirei uma grande lição. O orgulhinho da vida pessoal não pode ser transferido para a profissional. Na primeira, você faz o que bem entender. Nesta última, saiba que você depende da fonte e da boa vontade dela. Quase sempre, você vai ter que engolir rs! (Lembrando sempre, entretanto, que você não deve, NUNCA, abaixar a cabeça ou aceitar ser desrespeitado/desrespeitada por qualquer coisa… tudo tem limite, né?).

PS: Na minha situação, o editor não estava por perto quando falei com a fonte. Mas, caso aconteça com você e ele ou ela esteja por perto no momento, peça a fonte para esperar um minutinho e resolva a pendência antes de dispensar o contato. Caso seja solucionada a questão, você não terá que correr atrás da fonte novamente e engasgar com o orgulho, assim como aconteceu comigo rs.