Não vai ter texto

Não vai ter texto

Mais uma semana de imersão, mais novidades e muitos desafios. Uma das editorias que passei foi o Bazar, caderno de variedades publicado aos domingos. O editor Victor Villarpando me pediu uma reportagem cuja pauta não irei revelar, porque ainda não saiu. Sim, estou fazendo suspense. Exceto pela demora de algumas fontes para responder – ou eu que estava muito apressada para conseguir logo as informações, já nem sei -, a apuração estava indo bem. Até que um dos entrevistados pediu para ler meu texto antes da publicação.

“É só para evitar que saia algum erro técnico associado ao meu nome”, argumentou. Tentei tranquilizá-lo explicando que usaria somente as palavras que ele mesmo estava utilizando e, diante de qualquer dúvida, iria checar as informações imediatamente. Não adiantou. As tentativas de convencimento continuavam a jorrar no meu telefone: “mas o que custa?”, “tenho uma imagem a zelar”, “não vou dar palpite nas outras partes, somente no que for atribuído a mim”. Falei sobre a deontologia jornalística, reafirmei que estava atenta a tudo o que estava sendo dito e, num golpe de misericórdia, sugeri que as perguntas fossem respondidas por e-mail, assim não haveria espaço para dúvidas. Nada resolvia.

Não demorou muito para o teor do diálogo mudar. Sua estratégia foi colocar em xeque a credibilidade jornalística. “Tem jornal recebendo dinheiro para fazer matérias contra a nossa classe”, acusou impetuoso. Compreendo a preocupação com a reputação dele e também entendo que o jornalismo tem vivido tempos difíceis. A veracidade dos conteúdos noticiosos tem sido constantemente questionada e condenada ao carimbo do enviesamento. Mas achei deselegante, quase ofensivo, usar isso para deslegitimar o trabalho de um repórter.

Ninguém é obrigado a saber que esses pedidos podem ferir o nosso exercício profissional, mas respeitar os limites da profissão do outro é uma atitude ética. Perdemos cerca de 15 minutos de nossas vidas em uma argumentação tola que não nos levou a lugar nenhum. De um lado, ele resistiu às minhas justificativas. Do outro, eu estava decidida a não ceder, ainda que o assunto aparentemente nem fosse tão polêmico assim.

Eu, que costumo (ou costumava?) ser insegura, sempre com um pé atrás ao falar com as pessoas, me mantive firme na máxima #nãovaitertexto. Nesse caso, o envio prévio da matéria. Mencionei novamente a importância de apresentarmos um posicionamento da organização representada por ele para justamente fazer valer a diversidade das fontes e a pluralidade de visões, tão caros ao jornalismo sério que naquele momento ele tentava invalidar. No fim das contas, não lhe restou outra saída a não ser responder as perguntas por e-mail.

Tudo isso me fez pensar sobre a necessidade de resguardar o ofício jornalístico. Em uma época em que a expressão fake news salta aos nossos olhos a todo momento, é ainda mais importante frisar, garantir e atuar em prol da credibilidade da instituição jornalística. É tempo de buscar fortalecê-la, visto que é uma ferramenta essencial para a sociedade e para a democracia.