Festa dos sentidos

Festa dos sentidos

Até esta semana, quando o dia de Santa Bárbara – Iansã no candomblé – invadiu minhas pautas, nunca tinha dado a devida atenção para a data. Quanto tempo perdido! O 4 de dezembro é uma festa para os sentidos: tem musicalidade, energia, vermelho vibrando em todos os cantos, flores embelezando tudo, cheiros de incenso pairando no ar. A fé das pessoas se materializa aqui e ali através de lágrimas, olhos fechados em orações silenciosas, mãos erguidas diante da imagem da santa.

A experiência com a festa começou no dia anterior (3), minha primeira imersão, em que fiquei sob os cuidados da repórter de fotografia Marina Silva. Fomos para a cobertura dos preparativos para a celebração e um dos lugares que visitamos fica na Baixa dos Sapateiros. Perdi as contas de quantas vezes já passei por lá, mas meus olhos pareciam estar treinados para ver a modesta fachada vermelha do Mercado de Santa Bárbara, porque foi a primeira vez que pude enxergá-lo de verdade. Essa é uma das coisas que mais considero bonitas no jornalismo: a capacidade de nos apurar os olhos. Ele nos convida a viajar por esses microcosmos coexistentes à nossa bolha particular, nos resgata dos automatismos.

Enquanto entrávamos no galpão, fiquei pensando no quanto estive cega para aquele lugar durante tanto tempo. No fundo, se esconde a capela onde fica a imagem de Santa Bárbara, o local que procurávamos. Um decorador ocupava-se de preencher todo o entorno do altar com flores cuidadosamente arranjadas nos espaços vazios. Depois das fotos e de um bate-papo com ele, encerramos nossa andança, que também teve passagens pela Igreja do Rosário dos Pretos e pela sede do Corpo de Bombeiros.

Inícios
À lista de primeiras vezes da semana, acrescento o privilégio de ver uma redação como nunca tinha visto e como você provavelmente nunca viu: vazia. Completamente silenciosa. Eu e meu sono éramos os únicos seres animados presentes lá às 4h30 da manhã na última terça (4). Saímos pouco antes das 5h do jornal para a cobertura. Marina Aragão, que também integra o Programa Correio de Futuro, Naldo Freitas, motorista do CORREIO, e o repórter Nilson Marinho foram meus companheiros de aventura na minha primeira vez como (aspirante a) jornalista em uma festa da cidade.

Chegamos ao Pelourinho esperando ver alguma movimentação por lá. Tudo o que encontramos foram alguns gatos pingados – e aqui refiro-me, de fato, aos felinos. Mais adiante, havia alguns poucos ambulantes organizando suas barracas. Frustrados diante da movimentação (ou da falta dela), decidimos fazer um lanche para dar conta de acompanhar a procissão. Acontece que no meio do caminho tinha um incêndio. Repito: tinha um incêndio no meio do caminho. Cancelamos, então, a missão café-da-manhã para apurar o que estava acontecendo. Sem spoilers, para saber o que descobrimos você pode acessar a matéria.

No fim das contas, assistimos à missa, conversamos com mulheres devotas da figura religiosa e caminhamos pelas ruas do Centro Histórico junto à multidão. Para nós, não teve caruru, mas teve calor (muito!), suor e muita vontade de se jogar na água beatificada jorrada aos montes no público que lotou o pátio da sede do Corpo de Bombeiros. Cobrir a Festa de Santa Bárbara foi ver bem de perto a celebração da diversidade e do respeito. A cara da Bahia. Eparrei, Oyá!