“Eu me senti esquisito, como se eu nunca mais fosse sentir alegria na vida”. Assim que Rony Weasley descreveu seu primeiro encontro com um dementador no livro Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Foi exatamente desta maneira que me senti ao ir para o Cemitério do Campo Santo pela primeira vez na última segunda (3).
O som ambiente era um misto de um choro desesperado com pessoas cantando músicas de despedidas. Uma energia pesada, como se fosse proibido dar algum sorriso e ser feliz. Eu, que estava extremamente animado por essa ser a minha cobertura na imersão do Correio de Futuro, vi toda a minha euforia se esvair e me senti triste, vazio… Como se algo estivesse sugando a minha felicidade e as lembranças felizes, exatamente como faz o “beijo” de um dementador.
Eu fui lá cobrir o enterro do mestre de jiu-jitsu Sinho Baiano, que foi morto pela polícia. Esse foi, além da minha primeira vez num cemitério, meu primeiro contato com a morte.
Eu tenho a sorte de nunca ter perdido alguém especial o suficiente para me arrancar lágrimas ou fazer eu ir ao enterro. E, ao ir para esta cobertura, percebi o quanto eu não estou preparado para a morte, tanto a minha quanto a de alguém querido.
Isso é curioso, pois a única certeza que temos na vida é de que todos iremos morrer, mas eu nunca tinha realmente pensado sobre e entendido a profundidade disso.
Eu via as pessoas chorando, desesperadas em frente ao caixão e imaginava o que elas pensavam naquele momento. Os bons momentos que elas tiveram com o morto. Eu quase chorei em diversos momentos não por pensar “poderia ser eu no lugar delas” mas sim por que um dia eu realmente estarei naquela posição, seja na da pessoa desesperada, seja no corpo do caixão.
Por alguns momentos eu esquecia o motivo de eu estar lá, que era para cobrir e, mais importante, aprender como se apura um evento como esses. Foi uma das tarefas mais difíceis da minha vida tentar manter o profissionalismo e não me envolver tanto com o momento e a situação.
Outra coisa importante que eu aprendi, e Tailane Muniz (a repórter que eu acompanhei neste dia da imersão) me ajudou bastante a perceber isso, é que na profissão que eu escolhi nós lidamos com pessoas, vidas e histórias. Não podemos ser levianos e escrever certas coisas, mesmo que aquilo seja verdade, pois isso terá um impacto muito grande na vida dos familiares e pessoas próximas e que amam o homem ou a mulher sobre a qual estamos apurando e escrevendo algo.
Enfim, eu só sei que me senti muito aliviado ao deixar o Campo Santo. A única coisa que eu pensava e desejava ao sair de lá é nunca mais retornar ao cemitério. Infelizmente, esse meu desejo jamais será concretizado.