Ana Pereira falou sobre jornalismo cultural para a 13ª turma do Correio de Futuro
Quando era criança, uma das primeiras coisas que aprendi foi a melhor maneira de abusar a minha avó: desligando a TV na hora da novela. E eu, como criança abusada que era, sempre o fazia. O único requisito para meu plano dar certo era conseguir correr rápido o suficiente para conseguir escapar da sandália que sempre voava em minha direção.
Minha avó era aficionada por novelas. Assistia a todas. Da das seis a das nove. Ela chamava o momento que elas estavam passando de “A Hora Sagrada”. Além de assisti-las, sempre comprava um jornal para ler o resumo delas e saber de tudo que aconteceria nos próximos capítulos e, claro, saber as fofocas dos galãs. E a presença do resumo das novelas no CORREIO até hoje é prioridade. “Acabamos com quase tudo. O resumo de cinema, teatro… Até a editoria de cultura está em extinção, já perdemos duas páginas no jornal. Mas não da para mexer no resumo das novelas. Já tentamos tirar, mas não deu certo. O leitor sempre liga reclamando”, afirma Ana Cristina Pereira, editora do Vida, editoria de cultura do Correio. O resumo das novelas tem um espaço sagrado no jornal.
A novela realmente é uma das produções culturais mais importantes para os brasileiros. Prova disso é que no Brasil, o “país do futebol”, os jogos de quarta feira acontecem apenas às 10 horas para não chocar com o horário das telenovelas. E, para Ana Cristina, mostrar a cultura “que o povo quer saber”, mas também dar espaço para manifestações artísticas mais “refinadas” é um grande desafio.
“Tem uma certa pressão para falar das mesmas coisas que a grande mídia. Todo mundo dá tal noticia e o CORREIO tem que dar também. Tem quase uma agenda que se impõe para a gente e não tem como ignorar. O desafio é tentar achar uma brecha para colocar e dialogar com esses espaços e pessoas que estão produzindo algo bom e novo”, afirma a editora do Vida.
“Todo dia tem Anitta e Ivete pois o público quer ver. Há leitores para isso. Se, por exemplo, tem um filme que eu considero legal mas está sendo transmitido em apenas uma sala no cinema Saladearte, eu não posso dar espaço a ele e tirar de uma “mainstream” que estará presente em 30 salas”, lamenta, Ana.
Vade retro, cultura
Quando me falaram que eu iria ter que produzir um texto sobre a palestra que a editora de cultura iria dar para a gente do Correio do Futuro eu achei um porre. O motivo? De todas as editorias, a única que eu tenho praticamente zero de vontade de trabalhar é exatamente essa.
Não sei se isso tem a ver com as peripécias que eu aprontava com minha avó quando criança, mas eu simplesmente não tenho o menor interesse em novelas e nas músicas que geralmente fazem sucesso na Bahia, como Funk, Pagode, Axé e Arrocha, e cobrir cultura aqui é basicamente falar sobre esses dois temas. Sempre que eu via meus amigos que trabalham com cultura tendo que fazer resumo de novela, entrevistando o possante vocalista da magnífica banda La Fúria e, principalmente, fazendo a última coisa que desejo fazer: cobrindo o carnaval. Eu só conseguia pensar “vade retro, cultura”.
O único momento em que eu sentia inveja deles era quando recebiam os maravilhosos jabás. Eu tenho um amigo meu que quase todo fim de semana vai comer em um restaurante de graça. Eu sempre peço para ele me levar e, eventualmente, meus apelos o comovem e ele leva esse pobre ser humano para fazer uma boquinha.
Mas a palestra de Ana Cristina conseguiu dois milagres: eu achei cultura interessante e, o mais importante, despertou uma nova inveja em mim em relação ao jornalismo cultural quando ela falou sobre uma repórter do CORREIO que teve a oportunidade de ir à Roma para entrevistar Roger Waters e outra que foi à São Paulo para uma coletiva com Paul McCartney. Eu pensava: “Meu deus! Eu cobriria 10 carnavais para poder ir a esses lugares para entrevistar essas pessoas”.
Quem é Anitta na fila do Paul?
Outra coisa que me deixou bastante feliz em saber e reforçou a idolatria que eu tenho com o Paul é que Ana contou que ele é bastante acessível e uma pessoa maravilhosa. Ela relatou que o CORREIO teve a oportunidade de fazer uma exclusiva com o ex baixista e vocalista dos Beatles e disse que ele foi muito simpático com a equipe.
Ela comparou a atitude do Paul com a de Anitta. “Muitos artistas atualmente são lotados de assessores e quase não falam. Nós só conseguimos falar com a Anitta, por exemplo, no Festival de Verão, pois havia um espaço atrás do palco onde todos os artistas falavam com a imprensa. Fora disso, ela é muito inacessível”, lamenta. Ela completou em bom baianês “Quem é Anitta na fila do pão?” E eu complemento: Quem é Anitta na fila do Paul?