Jornalismo e sangue frio

Jornalismo e sangue frio

Um homem que varria o pátio empurrou a porta do ônibus e disse sem cerimônia: “Podem entrar. Eles já liberaram. Um monte de gente já viu”. O veículo parado no estacionamento da  27ª Delegacia Territorial, em Itinga, havia sido palco de uma execução na noite anterior.

Um jovem de 22 anos que trabalhava como cobrador foi assassinado com cinco tiros na cabeça. As entrevistas que fizemos com amigos e o relato do motorista, que cumpria seu primeiro dia na empresa e foi testemunha ocular do crime, apontavam que tratava-se de motivação passional, apesar de 800 reais do caixa terem sido levados. O cobrador estaria envolvido com a ex-namorada do suspeito.

O sangue estava espalhado por todo o veículo. Nas escadas, as manchas vermelhas indicavam que o líquido escorreu pelos degraus e, provavelmente, deve ter formado uma poça, no asfalto onde o ônibus parou – o fim de linha da Coopelotação, ponto conhecido por manter altos índices de violência, em Itinga.

Fomos até o local do crime atrás de mais informações. O carro do jornal foi recebido por olhares desconfiados vindos de um grupo de homens que jogava sinuca, em um bar, às 10h, de uma quinta-feira de céu cinza, em meados de outubro.

Por cautela e um pouco de medo, preferimos não descer do veículo e fizemos a volta. Cientes de que, em um estado de guerra civil disfarçada, há lugares onde o jornalismo não deve se arriscar.

Eu nunca tinha estado tão perto da violência, como durante a cobertura relatada. Durante a maior parte do tempo, desconectei meu corpo das minhas emoções. Mas, horas depois, em casa, sozinha, não pude deixar de refletir sobre como a situação tinha repercutido dentro de mim. Senti um cansaço pesado, misturado com uma tristeza mal explicada. Se eu vivo protegida e distante de uma realidade tão cruel, que me deixa chocada diante do mínimo contato; para muitos, a morte faz parte do dia a dia, como uma violência que de tão aterradora se transforma em banal.