Areia, clicks e três vezes ADEUS

Areia, clicks e três vezes ADEUS

Inalar o cheiro forte da podridão, ver o pesar e a dor de desconhecidos e sentir que tem algo errado. Querer abraçar o mundo, mas apenas perguntar o que aconteceu, anotar tudo e ir embora, foi um choque. Talvez o maior choque de realidade profissional que eu tive até o momento, mas valeu a pena e eu só tenho cada vez mais certeza de que estou no caminho certo.

Na manhã de segunda-feira (21), acompanhada pela repórter do Correio, Amanda Palma (paciência em pessoa), estive em minha primeira apuração de rua. Por voltas das 7h da manhã, na redação, chegou a notícia que dois corpos foram encontrados na praia, e que eles seriam os banhistas desaparecidos na tarde de sábado (19).

Ao chegar no local onde estava o primeiro corpo, o cheiro forte de salitro misturado com a decomposição invadiu o ar, mas não só sensibilizou meu olfato, como abalou a minha mente. Fizemos o nosso trabalho e seguimos para a praia onde estava o segundo corpo, outro pequeno choque de realidade angustiante. A família do segundo rapaz ainda não estava no local, e diferente da primeira cena, onde todos choravam, só havia solidão. A praia parecia ainda maior diante de tudo aquilo.

Então você pensa, repensa, e respira fundo, pois aquilo é seu trabalho, entrevista, pergunta, espera, observa, e precisa ir embora. Deveria ser fácil, estão me treinando para ser. Mas não é, é duro, é forte, e então você percebe que de fato, a vida segue. Dois jovens morreram, duas vidas e um ponto final, famílias em luto, mas nada mudou. O pescador seleciona seus peixes e fala com naturalidade sobre o resgate do corpo. Turistas sentam e olham o mar  as obras da orla continuam, nada parou, nada nunca para. Mas a vida daqueles jovens  teve um ponto final.

Isso foi só na segunda-feira de manhã, na terça-feira, encarei uma família, uma esposa, que perdeu seu companheiro em um assalto. Um PM, uma bala, uma passarela, o primeiro assalto, um acaso. Foi o que aconteceu nessa apuração,  durante o meu começo, o meu nascimento na redação de um jornal, eu presenciei três pontos finais.

 

P.S: Peço desculpas, a cada família que eu terei que entrevistar para conhecer uma personagem que deu adeus. E  eu espero, que mesmo depois de calejada, eu ainda sinta o nó na garganta, e que toda vez que eu precisar viver um ponto final , eu não esqueça que antes de tudo, a vida segue.