Uma faixa branca, pendurada em um portão de ferro, saúda os novos funcionários: “Futuros peritos criminais, bem-vindos ao nobre ofício”. A labuta que se desenrola no estabelecimento tem mesmo um quê de requinte, pode-se dizer, e muito de estranheza. Passar horas a avaliar cadáveres é, no mínimo, uma tarefa excepcional e minuciosa. Mas faz parte do dia a dia dos peritos criminais, que trabalham no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), em Salvador.
A rampa que separa o estacionamento do saguão de entrada para atendimento é longa. Na subida, parentes desesperados podem precisar do apoio de outros braços e ombros mais fortes ou optam por uma pausa, encostados ao corrimão, antes de encarar a cruel missão: identificar os corpos. No hall de espera, o leve cheiro de formol que impregna o ar é o indicativo que nos força a lembrar onde estamos.
Há mais de cem anos, o Vale dos Barris abriga o IMLNR, que homenageia no nome um dos seres humanos mais racistas que já pisaram em solos baianos, considerado em seu tempo como dotado de ideias avançadas.
Para Nina Rodrigues, negros, índios e mestiços eram vistos como raças inferiores, que deveriam ser julgados por um código penal diferenciado, já que não compartilhavam do mesmo nível intelectual dos homens brancos.
Por mais que as ideias do laureado tenham sido postas de escanteio em debates, a casa da condecoração ainda soma nos autos de entrada um número relevante de jovens negros e pobres. São vítimas de chacinas, assassinados pelo tráfico, pela polícia ou pela violência urbana, submetidos a exames de perícia criminal.
Hoje foi um dia de pesar para a família de Adonay Santos, de 9 anos. Um menino negro, filho de uma família sem recursos, morador de Candeias, Região Metropolitana de Salvador. Mais um inocente que pagou com a vida o preço de uma sociedade cruel, desequilibrada e sem valores. Sua vizinha, de 16 anos, e já mãe de dois filhos, realizou um sequestro malsucedido na segunda-feira (5) e, como não obteve resgate, decidiu enforcá-lo, após dopá-lo com antidepressivos.
O corpo do menino, que foi encontrado em um freezer, por volta das 22h30 da noite desta terça-feira (6), já apresentava sinais de gigantismo, quando foi levado para a perícia no IML.
Para a imprensa local, que também se alimenta da violência para cobrir matérias, com apelo e alta comercialização, fica a reflexão: como o jornalismo pode agir de modo preventivo e incluir em sua rotina o papel de agente transformador de uma sociedade? Ou nosso trabalho será sempre cobrir a morte de ontem?