Sobre violência e (in)sensibilidade

Sobre violência e (in)sensibilidade

Morar na terceira maior capital do Brasil carrega um imperativo: estamos inseguros. As condições que implicam a tensa relação entre a cidade, a violência e a população amedrontada são muitas e se inserem em um contexto bem mais amplo de organização social e políticas públicas a nível nacional.

O jornalismo acompanha os anseios da sociedade e caminha na direção de satisfazer a necessidade de informação premente sobre um assunto tão sério e cotidiano, como a segurança. Toda essa volta para cair na editoria de Polícia, uma das mais bem quistas e ocupadas alas do Correio (19 pessoas da equipe cobrem Bahia/Salvador e crimes).

São tantos casos que, nas conversas com os repórteres, percebi que me lembro de bem poucas ocorrências. De certo modo, abrir o jornal todos os dias e ler que x morreram, y foram presos por tráfico de drogas, z respondem à acusação de estupro e b negam que tenham assaltado o caixa eletrônico acaba por naturalizar em nós (falo aqui como leitora) o sentimento de que trata-se de algo banal.

Fica difícil acompanhar as estatísticas a cada balanço de final de semana sangrento. A culpa não é exatamente do jornal. Mas o que poderia ser feito para que a violência não fosse algo tão corriqueiro nas informações do nosso dia-a-dia? Cheguei muitas vezes ao ponto de me pegar distraída, mesmo diante de barbaridades, durante as leituras das notícias.

O repórter de polícia também encara diariamente o desafio de realizar seu trabalho e não ruir dentro de uma maré de insensibilidade e frieza. Se a violência parece rotina para quem lê, quiça para quem apura crimes todos os dias, pode chegar ao local ainda com os corpos intactos, às vezes perfurados por balas, e faz visitas ao Instituto Médico Legal (IML) semanalmente.

A ameaça ronda Salvador de uma maneira tão gritante, que não é surpreendente para um jornalista perceber que testemunhas de qualquer ocorrência temem dar informações. Ontem, acompanhei o repórter Diogo Costa na cobertura de um assalto no Bompreço, do Itaigara, próximo ao Posto dos Namorados. No local, tentamos falar com funcionários que estavam presentes na hora do crime, para saber mais detalhes do que aconteceu. Alguns se recusaram a dar depoimentos, outros pediram que seus nomes não fossem divulgados. Meu sexto sentido gritou para mim que as pessoas agiam oprimidas pelo medo. Mais do que a má vontade em contribuir, reinava o receio de uma retaliação da parte dos bandidos. É uma justiça paralela que se firma. “Você me dedura, eu te pego na próxima”. E assim caminhamos para um mundo melhor e mais informado…