Suas cercas matam

Suas cercas matam

O esperado verão europeu, tempo de calor e bonheur para o continente, sofreu um revés nessa temporada. As famosas ilhas gregas e as calmas águas da costa italiana, destino de turistas que buscam um período de descanso, se tornaram a porta de entrada de milhares de refugiados para o Velho Continente. A grande maioria são cidadãos da Síria, que enfrenta o quinto ano de uma sangrenta guerra civil.

No último sábado (12), tive a oportunidade de participar do curso Ajuda Humanitária em Pauta, promovido pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Na ocasião, foram apresentados dados sobre a crise humanitária que assola o país do Oriente Médio, atualmente dividido entre a violência comandada pelo ditador Bashar Al-Assad, Estado Islâmico e Frente Nusrah (Al Qaeda local).

Segundo a Acnur, braço da ONU para refugiados, desde o início do ano, cerca de 380 mil pessoas se arriscaram em rotas irregulares até a Europa – metade de origem síria. A onda migratória gerou uma crise no bloco europeu que se viu pressionado pela opinião pública a receber os refugiados, principalmente após a comoção mundial gerada pela foto do menino Aylan Kurdi, que morreu afogado em uma praia da Turquia.

Na semana passada, o MSF lançou a campanha internacional Suas Cercas Matam. A ação, que divulgou uma carta para os líderes europeus e promoveu iniciativas vias redes sociais, visa pressionar o bloco para a tomada de uma decisão unificada que ajude a evitar mais mortes. Em um trecho do texto, a organização critica as políticas atuais e pede que os Estados ofereçam entrada segura aos refugiados.

A reunião com 28 representantes da União Europeia, ontem, em Bruxelas, falhou em apresentar um plano emergencial para a crise política e humanitária no continente. Pelo contrário, aumentam as iniciativas de enrijecimento de controle entre as fronteiras. A livre circulação de pessoas no espaço Schengen, que abrange 26 países entre os quais não há controle de fronteiras, está ameaçada.

Uma possível iniciativa para distribuir 120 mil refugiados pelo bloco, ação que, se executada, excluiria mais de 50% dos que chegaram à Europa neste ano, não foi decidida. A próxima reunião está marcada para o dia 8 de outubro. Enquanto isso, o clima começa a mudar, com a chegada do outono, e as travessias passarão a ser ainda mais arriscadas, com mais vidas postas em risco.