Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

Durante o processo de apuração das pautas do projeto final do Correio de Futuro, pude ter algumas experiências novas e interessantes. Hoje vou falar de uma dessas em especial, que foi as entrevistas com pessoas com deficiência visual. Uma tarefa delicada por você estar conversando com uma pessoa que não está te vendo visualmente. Mas, diferente de uma entrevista por telefone, você está vendo o entrevistado. Está vendo as suas reações, gestos, inquietudes e as suas relações com os demais sentidos humanos.

Por conta do viés da pauta, eu e Edu (minha dupla no projeto) tivemos que fazer algumas perguntas delicadas aos entrevistados. Percebi que a melhor forma de conquistar a confiança de alguém que não pode, com a visão, enxergar as suas intenções é ser ao máximo honesto com a fonte. Criar um ambiente em que ela se sinta a vontade em conversar com um estranho e lhe responder perguntas que muitas vezes nem mesmo comentou com outra pessoa.

– Qual foi a sua sensação no primeiro beijo? No primeiro ato sexual? Quais os sentidos que mais te aguçam? Qual a sua definição para beleza?

Ensaio sobre a CegueiraEntrevistar um cego é perceber que a visão não é a única forma de enxergar as coisas. Que os sentidos vão além do simples tocar, ouvir, cheirar ou ver. Que eles não estão privados dos mesmos prazeres que os nossos e que os desejos sexuais estão presentes em todos e todas.


Para quem ainda não teve a oportunidade, indico a leitura do brilhante livro ‘Ensaio sobre a cegueira’, do português José Saramago. Ele mostra a angustia e instinto primário da sociedade após uma epidemia de cegueira. Genial!