Desde que começamos o programa Correio de Futuro, no primeiro dia de abril deste ano, a cara dos participantes da 8ª turma foi estampada em vários lugares: capa de Facebook, Instagram do Correio*… e ocupamos os holofotes de diversas formas. Realizamos postagens no blog de forma regular, cada um em seu dia designado, e compartilhamos nossas experiências durante o programa e nossas percepções em relação ao fazer jornalístico durante cada etapa do Correio de Futuro.
Na redação, somos conhecidos como “os futuros”. Após palestras que nos explicaram como funciona a rotina nas redações do Jornal Correio* e do Correio24Horas, entramos na fase da imersão, colaborando com o online e o impresso e, finalmente, iniciamos a apuração e preparação de nosso projeto, que vem em breve para os leitores. Final de junho, me permitam antecipar. Talvez vocês já tenham pescado algumas das pautas nas postagens anteriores minhas e de meus colegas “futuros”.
Entretanto, não sei quanto dos leitores do blog sabem, nos reunimos todas as sextas-feiras na Faculdade Social da Bahia, em Ondina, com duas educadoras. Para que serve isso? Compartilhar experiências, criticar e defender o fazer jornalístico e tudo que a ele interfere, chorar as frustrações e os estresses da redação e, o mais importante, aprender. Nessa empreitada, Bárbara Souza e Maria Isis são essenciais. Sem elas, seríamos apenas mais estagiários inseridos no contexto de uma redação. Não seríamos os futuros. Elas não apenas ministram a reunião e nos ensinam. Juntos rimos, choramos, tomamos bronca e somos, sim, cobrados. Afinal, somos jornalistas e temos prazos.
Não quero romantizar demais tal postagem, não sou o holofote desse texto. Pretendia escrever um textinho (ou não tão inho) explicando a importância pedagógica e dessas reuniões para o programa, mas ainda assim seria eu contando um fato. Dessa vez, quero que as professoras sejam também reconhecidas, aplaudidas e admiradas. São pessoas inteligentes e competentes (sem puxa-saquismos, por favor) que possuem muito a compartilhar conosco, com os leitores. Assim sendo, me despeço e deixo que elas mesmas expliquem que papel exercem no programa. Por favor, leiam. Não desistam pelo tamanho do texto. Ah, a entrevista foi editada, tá? Vamos fingir que tive algum trabalho.
Correio de Futuro – Como vocês chegaram ao programa Correio de Futuro?
Bárbara: Entrei no programa substituindo a professora Juliana Gutman, que à época também era da Faculdade Social da Bahia, mas precisou reduzir sua carga horária e indicou meu nome para compor a equipe de professores-consultores
Maria Isis: Quando Ufba e Correio terminaram a parceria em 2012, a Faculdade Social tornou-se apoiadora do projeto. Juliana Gutmann, que na época era professora da FSBA, foi a única do grupo de professores-consultores que permaneceu no Correio de Futuro. Ela me chamou para participar. Foi um grande presente trabalhar com ela e depois, com a sua saída, dividir a consultoria do projeto com Bárbara, com quem aprendo muito.
CDF – Qual o papel das professoras durante cada etapa do produto?
B: No processo de elaboração do produto, o papel das professoras é estimular e articular as discussões sobre os temas (considerando sempre os aspectos técnicos-jornalísticos, editoriais, humanísticos e mercadológicos que são transversais a essa escolha), orientar a apuração em parceria com os editores do jornal e dar suporte pedagógico e jornalístico aos estudantes que estão no programa.
M: Ainda lembro que os encontros que temos às sextas-feiras no ambiente da sala de aula, longe da redação, é a materialização de um momento reflexivo, em que aparecem dúvidas, incoerências e críticas sobre o fazer jornalístico. O suporte pedagógico faz parte desde a seleção dos alunos até a etapa de avaliação final e, sem dúvida, é o principal diferencial entre o Correio de Futuro e qualquer outro programa de estágio em jornalismo pelo qual o aluno possa passar.
CDF – Qual a importância da academia no crescimento dos participantes do programa como profissionais?
B: A Academia é, por excelência, o ambiente que possibilita ao estudante um singular salto qualitativo não só no que diz respeito ao aporte de conhecimento da sua formação específica, mas a Academia é também uma ponte, um portal de entrada para um universo de saberes, debates, reflexões e de digressões criativas que possibilitam o crescimento do estudante. Esse crescimento continua em curso durante o programa e é potencializado pela interlocução Academia-Mercado, estimulada pelo próprio formato do programa e nas intervenções da professoras-consultoras que buscam sempre lembrar e estabelecer conexões entre essas duas esferas de atuação.
M: Academia e mercado são duas estâncias igualmente importantes na construção de um profissional. É incompreensível como, por muito tempo, as pessoas ainda tenham separado as duas. Exercitar a reflexão teórica sobre o pragmatismo da rotina produtiva e observar os limites que a prática impõe a certas idealizações da academia são dois excelentes exercícios. A academia sempre será o lugar de pensar sobre o que se faz sem deadline. O Correio de Futuro responde a quem pode imaginar que é possível ser jornalista sem diploma ou quem acha que o mercado não está aberto a repensar as próprias práticas.
CDF – Você costuma observar uma mudança na postura dos participantes do Correio de Futuro no decorrer do programa?
B: Sim. Mudanças para melhor (amadurecimento profissional, comprometimento e colaboração, por exemplo) e para pior (desinteresse, postura presunçosa que parte do pressuposto equivocado e arrogante de que podem fazer as coisas a seu modo). Felizmente, o primeiro caso é mais comum.
M: Ninguém passa imune pelo Correio de Futuro. O projeto tem um ritmo intenso e como a equipe é pequena, em média 10 pessoas por turma, cada estudante tem suas características completamente reveladas. A evolução e o amadurecimento certamente é maior entre aqueles que assumem efetivamente a postura de estudante, ou seja, profissional em estado de construção. Quem exercita a escuta, questiona de forma propositiva e partilha suas inquietações com professoras e editores do jornal tem um grande ganho. Como em qualquer processo na vida, o amadurecimento é exatamente do tamanho que o aluno permite que ele seja.
CDF – Qual a importância dos próprios participantes escolherem o tema do produto final? Isso facilita ou dificulta a elaboração de pautas?
B: Primeiro: a escolha do tema é, em si, um exercício jornalístico importante e enriquecedor. O fato de escolher o tema também tende a fortalecer o interesse e envolvimento na produção. Em geral, facilita. Vejo duas situações claras em que essa escolha dificulta a produção: uma, quando o tema é difícil e a outra é quando o tema escolhido gerou frustração em alguns participantes que não “superam” o fato de que o tema que haviam sugerido não foi o escolhido.
M: É importante exercitar a autonomia e conceber um produto desde o início. Gera empatia no estudante desenvolver algo imaginado por ele ou por seu grupo, mas também lidamos com momentos de desencanto e de frustração, ainda que as consultoras ou a equipe de profissionais do jornal não imponha um tema ou uma pauta.
CDF – Qual o papel do blog para o Correio de Futuro? O que é possível observar a partir das postagens dos participantes?
B: Registrar os bastidores e o processo da experiência de imersão, aprendizado, produção sob a ótica de quem passa por essa experiência e, claro, compartilhar esse registro. É possível observar vários aspectos, mas destaco um que sempre me chama atenção: o fato de que nem sempre aparece nos textos as melhores histórias, experiências e percepções que são narradas muitas vezes com forte entusiasmo em nossas reuniões das sextas. É como se o futuro ‘burocratizasse’ o relato da sua experiência, mas o humanizasse de forma interessantíssima ao falar sobre essa experiência no ‘confessionário’ das sextas.
M: Uma outra pergunta que pode ser feita é: quem rotineiramente lê o blog Correio de Futuro? Pelo menos três importantes grupos: os próprios alunos da turma (já que eles têm experiências diferentes, sobretudo na fase de imersão, quando ficam separados), os profissionais do próprio jornal (que querem ler o registro da palestra que fizeram, por exemplo) e, principalmente, outros estudantes de jornalismo que querem, um dia, poder participar do projeto. É para estes leitores, prioritariamente, que os “futuros” escrevem. Tenho a mesma impressão que Bárbara. Muitas vezes o “futuro” é contido, formal, burocrático ou extremamente existencial ao falar das próprias vivências. E o “futuro” pode ser bem mais multimídia, questionador, original e ousado, não é?
CDF – Teria alguma coisa a sugerir para melhorar o Correio de Futuro? Caso sim, o que e como isso acrescentaria ao programa?
B: Penso que sempre tem como melhorar e temos feito, a cada edição do programa melhorias importantes. Faremos, como de praxe, uma reunião de avaliação e nela sempre ouvimos e propomos melhorias. Tenho as minhas sugestões, mas só vou contá-las na reunião.
M: É nítido para nós como o Correio de Futuro se aperfeiçoa enquanto projeto a cada turma. Ele é uma iniciativa pioneira na região Nordeste, acontece há quatro anos e já auxiliou na formação profissional de quase 80 alunos de diferentes faculdades da Bahia. São predicados importantes que nos motivam a melhorar cada vez mais. Exercitar o jornalismo multimídia e o jornalismo de dados são dois grandes desafios e, quem sabe, ampliar o projeto para outras áreas transversais ao jornalismo, como o design gráfico.