A morte pede notícia

A morte pede notícia

 

 

Finalmente fui acompanhar casos policiais. Logo que cheguei à redação na segunda (4), pedi para Linda me jogar em algum caso. Eu sempre gostei de filmes e livros que abordam o tema. A redação seria a minha chance de presenciar um caso da ‘vida real’ sendo contado por um jornalista. Rapidamente fui procurar por Gilson Santos, o Gil. Tudo ocorreu como esperado. Recebemos as pautas da produção e Gil fez exercícios de apuração comigo. Para cada pauta lida, ele me perguntava quais as fontes eu achava que deveria ser ouvida. Até então tudo caminhava bem. Gil teve grande atenção e vontade de me ensinar o que sabia.

A tranquilidade passou por reviravoltas. Em um dado momento, quando fomos fazer as primeiras apurações de um caso de assassinato em Brotas, descobri que o rapaz era amigo de infância de meu irmão. Eles estudaram juntos durante boa parte de sua adolescência. É óbvio que minha relação com o caso mudou drasticamente. Descobri a morte de alguém conhecido de uma forma totalmente diferente do costume. Apesar da minha surpresa e da afirmação de que realmente o mundo é pequeno e que o pior não acontece somente com o outro, acompanhei todo o processo de apuração. No final não conseguimos todos os detalhes do crime e a nota não saiu na manhã do dia seguinte.

Foi impossível não pensar na morte durante o caminho de casa. O caso não se encaixava no de práxis. A morte sempre causa desconforto, mas, até então, estava com tanta vontade de aprender a apurar casos policiais que não tinha me dado conta que já estava tratando aquelas vidas com certa banalidade. E olha que ainda era meu primeiro dia trabalhando com esse tipo de notícia. A perda do amigo de meu irmão me fez pensar muito no meu lado humano. Ao sair do ônibus tive a forte certeza de que não posso e não quero perder essa parte de mim.