Como manda a cartilha do jornalismo, um quesito essencial para uma boa matéria é a presença de fontes, sejam elas oficiais ou oficiosas. Mas e quando a fonte não quer falar? E quando a fonte não pode falar? Nessa semana pude acompanhar três pautas de polícia pelo jornal Correio*. Acompanhei os repórteres Yne Manoela (Cosme de Farias – assassinato de dois irmãos), Bruno Wendel (Águas Claras – disputa pelo tráfico) e Alexandre Mota (Jardim Santo Inácio – marido assassina esposa). Em ambos os casos algo em comum: a lei do silêncio.
No primeiro caso, a dor de uma família que perde dois irmãos em um mesmo dia, no mesmo lugar, com os mesmos assassinos. Se falar neste momento já seria difícil, pior se torna quando os próprios algozes da família moram no bairro. Os irmãos Daivid de 15 anos e Mateus de 17 foram mortos por conta de envolvimento em facções criminosas. Ambos eram da facção Caveira, que domina a região. Para os familiares, vizinhos ou moradores do bairro, falar sobre o caso ou sobre o grupo que “comanda” a região é correr risco de amanhecer com os corpos estirados na rua, como ocorreu com os jovens irmãos.
No dia seguinte, acompanhei Bruno em uma denuncia de disputa pelo tráfico em Águas Claras que acabava com inocentes baleados e jovens assassinados. Novamente a facção Caveira disputando a área com a ‘nova’ facção Katiara. Das poucas fontes que aceitavam falar com a reportagem, uma implorou: “Pelo amor de Deus, não coloque nosso nome, sobrenome e nem onde moramos. Eles vão matar toda minha família”. Outro simplificou a situação da região dizendo que “aqui quem manda é a voz do silêncio”.
No Jardim Santo Inácio o motivo do silêncio era outro. O que falar quando um marido assassina a esposa, mãe de seus quatro filhos, na saída de um bar? Como explicar a dor da perda ou o ciúme doentio de um pai pela sua mulher? Infelizmente o trabalho do jornalista nem sempre permite voltar à redação sem a fala da fonte. Nem sempre a dor ou o medo permite soltar palavras. Nem sempre palavras resume o sentimento.