Na última semana, eu tive a pior experiência de minha recém-iniciada carreira jornalística. Porém, paradoxalmente, foi a melhor experiência que podia me acontecer no programa Correio de Futuro, acho. Na semana passada, acompanhei a rotina dos profissionais do impresso, chegando inclusive a assinar uma matéria que fiz em conjunto com a repórter Naiana Ribeiro. Mas não foi isso que me marcou.
Não querendo aqui desmerecer o trabalho dos jornalistas do correio online, que venho acompanhando o sofrimento para apurar uma matéria pelo telefone, muitas vezes deixando de noticiar um fato por não o ter confirmado com uma fonte oficial. Contudo, muitas notícias são menos insipidas, não apenas ao jornalista, mas ao ser humano, vista pela tela de um computador do que pelos próprios olhos, estando no local onde o fato ocorreu.
É provável que todo soteropolitano tenha acompanhado os transtornos que a chuva da semana passada causou em Salvador, principalmente na segunda-feira, sendo os deslizamentos da região de Marotinho, no bairro de Bom Juá, e da localidade de Barro Branco, na San Martin, os mais noticiados. Eu tive a oportunidade de ir a Barro Branco na última terça-feira, juntamente com a repórter Luana Amaral, que acompanhava e esperava pelo resgate do último corpo de vítimas de deslizamentos na localidade.
Não se traduz em palavras o que eu vi ali. É difícil, talvez por eu ser novato ou verde ainda na profissão. É impossível passar para essa postagem todo o sentimento que me atingiu como ser humano ver aquelas casas destruídas, aquela quantidade de lama que era capaz de encobrir todo o meu pé, mais do que isso em alguns pontos. O perigo e a insalubridade que algumas comunidades de Salvador vivem me atingiram com um golpe amargo no estômago. Não era mais uma notícia distante do meu eu, mas estava eu lá, vendo “com meus próprios olhos” o impacto da chuva que para mim foi apenas uma impossibilidade de ir a faculdade na segunda pela manhã.
Fui atingido por uma dor moral, que nenhum remédio ou palavra de consolação poderia curar. Precisava, porém, sufocar todo esse sentimento humano, para que o jornalista pudesse atuar. Enquanto realizava algumas entrevistas – e acompanhava a repórter na sua apuração, os sentimentos tentavam emergir do esconderijo onde eu os havia escondido.
Olhei para o meu lado, em dado momento, e vi uma porta. Uma porta que poderia ser de um quarto, banheiro ou ser A porta da frente – quem vai saber? O último corpo estava debaixo de uma das lajes que havia desabado durante o deslizamento. Corpo sem vida. Corpo que serviria para os familiares chorar a tragédia, chorar a saudade. Estava intacto – pelo menos. Foi quando me senti vivo! Não de uma maneira superior, não aliviado pelo desastre não ter acontecido com minha família, embora eu o estivesse. Mas aliviado por ser capaz de sentir, me comover e lamentar uma situação acontecida com desconhecidos.
Sei que a postagem já está grande e cansativa. Peço desculpas pelo desabafo.
Poderia ter lamentado ter visto tudo aquilo. Poderia preferir ter experimentado apenas a vivência do “aquário”, vendo tudo de longe. Mas senti que cresci como ser humano. Cresci como jornalista. Eu preferi ver.