Estava pensando, nesse tempo de greve de várias profissões, que eu nunca presenciei uma greve de jornalistas. Nem mesmo uma paralisação. Lembro que certa vez a professora Lia Seixas falou a respeito disso. Segundo ela, e um texto que estávamos lendo na época (não lembro qual), as empresas jornalísticas buscam ter uma relação boa com seus profissionais, o que evita desconfortos entre as partes. Mas, não acho que seja somente isso, até por que já vi muitos jornalistas se queixando dos baixos salários que não são compatíveis com a quantidade de trabalho feito, com o pouco tempo que dispõem para ficar com suas famílias, etc. Tem gente, inclusive, que mudou de ramo por esses motivos.
Em minha opinião o que realmente faz com que os jornalistas sejam fiéis à profissão já foi dito num post anterior: “O jornalismo tem que ser a sua cachaça”. Essa frase do fotojornalista, Robson Neto, traduz o sentimento de um verdadeiro jornalista que vive, respira a profissão, que se sente responsável pelo jornal, responsável por informar a profissão, mesmo que as condições de trabalho não sejam as melhores.
Existe também o fato de se fazer parte de uma equipe, por que parece que há uma irmandade entre os jornalistas. Há alguns semestres, na faculdade a professora Malú Fontes havia falado sobre o relacionamento cordial que os jornalistas devem ter uns com os outros. Segundo ela, jornalista não pode fazer inimizades, até por que um dia seu desafeto poderá ser seu chefe. Eu concordei, na época, mas não tinha visualizado com muita profundidade até entrar para o Correio de Futuro.
Quando saí para acompanhar jornalistas em apurações pude constatar o que Malú queria dizer. Por diversas vezes pude ver como eles são parceiros uns dos outros. Cedem informações, complementam as perguntas uns dos outros em entrevistas, ajudam a compreender algum fato que não ficou tão claro quando a fonte explicou, entre outras coisas. Essas características ficaram mais evidentes para mim quando fui cobrir pautas com o pessoal da editoria de esporte.
Aqui em Salvador, as notícias sobre esporte giram basicamente em torno do Bahia e do Vitória, os principais times baianos, por isso todos os veículos estão presentes nos eventos referentes a eles. Todos os repórteres se conhecem e nas salas reservadas para a imprensa, que existem todos os estádios, reina um clima de amizade. Eles se conhecem bem, contam suas resenhas, tiram sarro uns dos outros, falam sobre o trabalho, trocam figurinhas, literalmente. Nessa época de copa, eles trocam figurinhas para os álbuns também.
Nós, “futuros”, ou pelo menos eu, fui contagiada por esse clima. Tive a oportunidade de conversar com alguns dos profissionais de outros veículos sobre o trabalho deles. Eles foram muito receptivos, principalmente por saber que eu era aprendiz na profissão. Dava pra notar que eles ficavam satisfeitos em falar sobre o que faziam. Certamente, para eles, o jornalismo também é uma cachaça.
Mas, nem tudo é oba-oba! Como bem disse Jairo Júnior, em sua palestra ao Correio de Futuro, “um jornalista está sempre querendo furar o outro”. Para quem não é do ramo, esse termo “furar” pode soar estranho. Mas essa é uma gíria utilizada nas redações para dizer que um veículo jornalístico conseguiu dar uma notícia que os outros não conseguiram. Lembro que o Jairo falou, inclusive, que veículos da mesma empresa também gostam de furar uns aos outros e que jornalistas do mesmo veículo idem.
Eu acho que trabalho em equipe num veículo jornalístico é o que há de mais importante, pois se um falha, o todo fica prejudicado. Essa é uma das maiores lições que aprendi na imersão do Correio*, tanto no online quanto no impresso. Todo mundo é importante e precisa fazer sua parte. O repórter precisa do pauteiro, o fotógrafo precisa do editor, que precisa do diagramador, que precisa do estagiário (sim! Por que nós também somos importantes), etc.
Gostaria de finalizar falando que ser amigo de todos e trabalhar em equipe é essencial, porém é preciso ficar ligado nos gaviões que estão alí à espreita. Aprendi essa lição na faculdade mesmo. Um desses gaviões roubou uma das minhas pautas quando estava escrevendo para o jornal laboratório. Nunca vi ninguém comentar sobre algo do tipo no Correio, mas vale a pena ficar de olhos abertos.