Sabe de nada, inocente!

Sabe de nada, inocente!

“A bola rolou em Pituaçu e começa o jogo!”  Naquele momento eu não era mais uma torcedora do Vitória e sim a estagiária do Correio de Futuro. O Bahia poderia perder até por um gol de diferença e ainda assim se consagraria campeão baiano 2014. E sem pressa de atacar, mas empurrado pela torcida aos 19 minutos após cobrança de falta de Talisca, Fahel acerta a cabeçada e abre o placar complicando ainda mais a vida do meu Negô. Desolada, sento no passeio do estacionamento de Pituaçu e ajeito o fone do celular.

Meus olhos não acreditavam no que viam. Dezenas, centenas de torcedores do Vitória começavam a deixar o estádio e um grupo de torcedores do Bahia, que estavam do lado de fora começa a provocar. Inicio de tumulto que logo foi controlado pela polícia, que não mediu esforços para evitar confronto entre as torcidas rivais – embora já tivesse sido registrados confrontos nos bairros de Brotas e Nazaré.

E embora tivesse participado da caminhada de Ramos, na manhã de domingo (13), iniciava ali a minha “via crucis”. De um lado torcedores abandonando o estádio por não acreditarem mais numa virada. Do outo lado já era possível ouvir os gritos de É campeão!! É campeão!! E para piorar a vida da torcida Rubro Negra Lincoln amplia o placar ao dominar a bola e estufar a rede do goleiro Wilson após o lançamento de Rhayner.

Foi a gota d’água e o Vitória caiu no Lepo Lepo. Clássico é clássico ou veste a camisa ou não entra em campo. Mesmo tendo sido superior ao Bahia durante todo o campeonato e jogando a final com o regulamento debaixo dos braços o Vitória não conseguiu manter a superioridade e voltaria para o segundo tempo com a obrigação de marca quatro gols.

A essa altura e desacreditada parte da torcida já havia esvaziado Pituaçu e aos nove minutos Juan abre o placar para o Vitória, após cobrança de pênalti cometido por Diogo Macedo que dominou a bola com o braço. Torcedores que saiam retornaram enlouquecidos e juntaram-se aos demais gritando e empurrando o Vitória.

Enquanto isso a torcida rival parecia temer a reação do time Rubro Negro. Aos 17 minutos o Vitória vê sua situação se complicar mais uma vez com a expulsão de Matheus Salustiano. Mesmo com um jogador a menos o Vitória vai pra cima e aos 29 minutos no bate-rebate Ayrton iguala o placar.

Os tricolores calaram-se. Liguei meu rádio novamente e faltando mais ou menos 15 minutos cheguei a acreditar que daria tempo. Era tarde demais, mesmo pressionado pelo Vitória o Bahia conseguiu administrar bem o empate e vence o seu 45º título baiano. Toca então o telefone de Roberto Midlej, repórter que eu acompanhava, era Linda pedindo para fossemos fazer (cobrir) o trio – a festa do Bahia. Aí eu pensei: ”Meu Deus, o que é isso? Cobrir a festa do Bahia?!”

“Foi bom o Vitória ter perdido, porque só assim a diretoria muda essa zaga”, ouvi de um torcedor do Vitória que deixava o estádio. “Vocês são jornalistas? Eu quero falar!”, pontuou um torcedor do Bahia. “O meu Baêa é o melhor. Tome LepoLepo Vitórinha!” Gente era muito louco e a minha cabeça começou a doer. Na verdade eu não sabia se era a cabeça ou se era o coração. “Você tem cara de Bahia. Você é ou não é Bahia?”, me perguntou outro tricolor. Balancei com a cabeça negando. E lá vamos nós para a Orla acompanhar a festa da torcida tricolor.

“Gosto muito de te ver, Leãozinho. Caminhando sob o sol Gosto muito de você, Leãozinho”, era o cantava Ricardo Chaves, além de simular miados de gato. Como se não bastasse, começa a chover e ao som do LepoLepo a torcida recebe o paredão Marcelo Lomba, que sobe ao trio com a taça de campeão.

E eu ali, só olhando. Era hora de voltar para casa. Durante o retorno e observando toda aquela festa bonita, (verdade seja dita) pensei: “O Correio me proporcionou duas experiências bem distintas. A felicidade de beber dessa fonte impar que é a redação de um jornal e a tristeza em ver o meu time ser vice, mais uma vez”.

Definitivamente, jamais imaginei que teria serenidade e força para suportar experiências tão distintas. Mas como bem disse Elis Regina “Nem sempre ganhando nem sempre perdendo. Mas, aprendendo a jogar”.

Vida que segue / Foto: Dami Cerqueira

Vida que segue / Foto: Dami Cerqueira

Tenho que confessar que não me arrependo, em nenhum momento, por ter abandonado outros cursos em função dessa “cachaça” gostosa chamada JORNALISMO. Agora vou nessa que amanhã acordo por volta de 4h30  pegar dois buzus lotados para chegar à redação bem cedinho.