O jornalista e o Artífice

O jornalista e o Artífice

Richard Sennett em “O Artífice”, livro de sua autoria e escrito em 2008, conta sobre como o “trabalho manual pode animar o trabalho da mente”. Seja pelo exemplo do museu de Guggenheim de Bilbao ou pela maneira como Stradivarius tangia a sua famosa oficina de violinos. Mas… o que isso tem a ver com os de Futuro e os do Presente?

Nesta última semana, após refletir sobre as atividades que desempenhei e – meio sem querer – lembrar d’O Artífice, percebi que trabalhei com alguns artesãos da notícia. Fui a lugares onde o “hand made” deixa de ser puro capricho de bonequinhas de luxo e passa a ser regra. Mas vamos por partes, não é?

O que você faria com mais de 50 páginas de horários de ônibus? O que você faria se os “desvios” destas linhas fossem poucos. Quase insignificantes? Surtaria? Hm, ok. Aconteceu também. Mas aprendi com Alexandro Mota (que um dia já me entrevistou para uma matéria, quem diria…) que o melhor é ligar o “Keep Calm” e observar.

O Artífice e alguns outros livros que li esse ano

O Artífice e alguns outros livros que li esse ano

Não, daquelas folhas não surgiriam uma manchete, ou as letrinhas iriam sair voando e montar uma coluna de texto no Mais de domingo. Acho que ele sabia disso. Mas Alê também sabe que dados falam sozinhos. O difícil, na maioria das vezes, é apurar (rs) os ouvidos. E eu preciso dizer: Ele conseguiu.

Ouvir José Carlos Aleluia, Horácio Brasil, os rodoviários e a população era o óbvio. Mas repito como um mantra: O óbvio, muitas vezes, é o que falta ser perguntado. Acho que o mesmo acontece no jornalismo. Ir, de lugar em lugar, montando peça por peça e observando: foi assim que eles domou os horários, os desvios.

Uma página na web surge do nada. Supostos traficantes exibem armas, planos de invasão e o que fazer com tantos fatos soltos? Mais uma vez, observar.

No dia seguinte, sentei-me ao lado de Alexandre Lyrio e, assumo, fiquei nervoso. Ele é o cara dos textos mais legais do Correio, tenho que dizer. Neste meio tempo, ouvi a conversa da mesa ao lado. Uma moça – que não lembro o nome agora – advertia um estagiário sobre “furos” numa matéria do dia anterior. “Você não ouviu ela? Por quê? Não faça isso com nosso leitor, ele não merece”, alertava, sem ser bruta. Acho que o moço esqueceu de juntar um pedaço ao outro. De ser um pouco mais meticuloso. Após a bronca, a matéria dele – agora sem furos – era capa do jornal.

Mas voltando… com Lyrio aprendi que nada é tão pequeno que não possa ser observado por outro lado. Aí surge uma personagem importante: Edvan Lessa. Ed chegou à mesa e falou: “Você já viu que existem outras tantas mil páginas como essa tal de ‘Oh Oh Caveirão’?”. Não. Ninguém da imprensa tinha visto. Ninguém se deu ao trabalho de “fuçar” as pessoas do Oh Oh Caveirão. Só ele. Resultado: um Mais que mesclou interesse público e interesse do público. Uma obra de arte do jornalismo cotidiano. E como foi feito? Observando e quase manualmente.

Fui “criado” no jornalismo online, e lá, como bem sabemos, tempo é dinheiro, furo e prestígio. Existem artesãos por trás das telas dos computadores? Claro! Já conheci alguns. Sou assim? Não sei. Mas tentarei ser mais observador. Tentarei deixar os fatos conversarem comigo, antes que eu passe os pés pelas mãos e escreva o primeiro “a” da página em branco. Fazer as coisas de forma mecânica é muito chato e pobre. O jornalismo é uma arte. E toda arte é uma boia no mar que ruma para uma jornada nova.