Eu e Emile Conceição estreamos no Jornalismo Esportivo com o pé direito. Ou não. Até então, eu nunca havia feito nada dentro do jornalismo que se relacionasse ao futebol, esporte do qual… é, vamos lá… não sou muito chegada (exceto em Copas do Mundo, quando pareço torcedora nata). Saímos com o repórter do Correio* Angelo Paz, para cobrir um treino do Esporte Clube Vitória, nesta quinta (27),no Barradão. A pauta não estava muito bem definida e não existiam muitas novidades para o dia. Mal sabíamos o que estava por vir.
Depois de olhar aquela imensidão verde e conhecer a sala de imprensa, encontramos três colegas jornalistas de uma emissora local. Após um breve papo com o assessor de imprensa do clube, eis que uma frase me chama atenção: “Tem um corpo, um presunto, largado ali atrás do mato”.
Corpo? Atrás do mato? Olhei de novo a imensidão verde e só via os jogadores e a comissão técnica treinando como se nada tivesse acontecido. Onde estaria a Polícia? Como foi que o “presuntão” foi parar ali? Quem achou o corpo? Será que vamos ficar aqui olhando esse vai e vem de bolas?
Emile queria ver o corpo, eu nem tanto e o Angelo menos ainda. Dez minutos parados olhando as bolas e então soltei a frase “Olha, ali atrás do muro deve estar mais emocionante que isso aqui, viu?”. É, falei mesmo. Não que eu desejasse ver o corpo, mas sempre tive dentro de mim essa coisa incontrolável e curiosa. Sim, muito curiosa. A emoção me chamava e falava mais alto, e eu queria participar do momento. Desculpem aos amigos viciados em futebol, nada me atraia ali. Angelo cedeu e fomos caminhando muito rápido pro local.
O muro que cercava o campo estava quebrado. Era a passagem. A Polícia já tinha chegado e estava no local também. Logo que saímos do campo, demos de cara com três buracos enormes parecendo umas covas. Alguém soltou uma piadinha: “É, até a cova já estava pronta”. Enquanto a gente caminhava pelo mato, os PMs voltavam, pois ainda aguardavam a chegada da Polícia Técnica. Íamos caminhando no sentido contrário, e individualmente fui me dando conta da banalidade da situação. As perguntas não paravam de surgir na minha cabeça e eu queria decifrar o fato no estilo Sherlock Holmes.
Não consegui chegar tão perto, mas o perto que cheguei foi suficiente pra me deixar impressionada. Os colegas chegavam perto, filmavam partes do corpo, brincavam com a quantidade de tiros, e me chamavam. Nosso fotógrafo até resolveu nos dar uma aula de fotojornalismo exclusiva. Foi quando percebi que não sentia medo ou pena. Eu me sentia normal, como se aquela situação fosse corriqueira. Infelizmente. O homem morto parecia estar dormindo, não tive a total compreensão emotiva do que acontecia. Sabia, racionalmente que ele estava morto, mas só fui sentir depois.
Também não sei como terminar o relato do dia. Vai terminar assim, sem sentido, como terminou a vida daquele homem, de forma banal.