Michelle é pop

Michelle é pop

Não é segredo para ninguém, mesmo para quem não está na rotina da redação do jornal, que o Correio* sempre busca como gancho um personagem. Aquela figura por quem o leitor sinta de alguma forma uma identificação. Na quarta-feira, impulsionados pela reeleição de Barack Obama nos EUA, três jornalistas de futuro saíram em busca de declarações sobre a sra. Obama. Fabrina Macedo, Thais Motta e este que vos escreve buscaram na rede manifestações de líderes políticos e artistas sobre a vitória de Obama. No entanto, o enfoque era na senhora do “grande homem”, como o “novo” presidente foi chamado no título da reportagem de Priscila Chammas. Tudo porque pesquisas apontavam que a popularidade de Michelle Obama era maior que a de seu marido e que, consequentemente, sua participação ativa na campanha teve influência direta no resultado da eleição. Segundo o instituto Gallup, Michelle tem uma popularidade de cerca de 60% desde 2010, enquanto Barack Obama muitas vezes nem chegava aos 50%.

 Os editores queriam focar os olhares agora no que a primeira dama representa para os EUA e para o mundo. Negra, mãe e esposa dedicada e mulher. Que outro lugar no mundo acharíamos uma personagem com esse perfil? Salvador é uma das possibilidades mais fortes. A capital da Bahia é o local onde a população negra é predominante e onde as mulheres inevitavelmente assumem o sustento de suas próprias casas. Detalhe: muitas delas sem ter um Barack Obama do lado para segurar a barra.

Se Obama ou Michelle de fato representam esse exemplo de conduta humana é uma discussão pertinente, mas que torna-se menor diante de outros pontos que precisam ser levantados. Não duvido que o casal tenha uma relação sincera e cheia de afeto (nem sei se é meu papel discutir isso aqui), mas é óbvio que a imagem dos Obama passa por uma construção detalhadamente pensada por marqueteiros políticos para angariar votos na campanha. Também não queria entrar na discussão sobre a pertinência ou não de uma capa para esse tipo de abordagem , até porque não acredito que o jornalismo tenha que ser tão inflexível a ponto de acreditar que somente a perspectiva dura dos cadernos de cidade prestam um serviço ou proporcionam transformações no leitor. Muitas vezes as maiores transformações surgem no que está além do que se materializa diante de nossos próprios olhos. A apresentação de uma “personagem-referência” pode causar mais transformações na vida de um leitor que a reiterada discussão sobre os problemas administrativos de nossa cidade. O que vale a pena destacar é que, querendo ou não, a capa do jornal na  quinta (08) tem sua importância, sobretudo para uma população dominada por mulheres negras, que vivem nas piores condições possíveis, ainda que a injeção de ânimo surja bem acima da linha do Equador.

Não sei se é uma reflexão isolada, nem acredito que não esteja suscetível a mudanças,  mas quis registrar aqui.