Do 22º andar pro chão

Do 22º andar pro chão

Foto: Reprodução/TV Bahia

Meu último texto por aqui foi falando da minha visita ao apartamento do futuro prefeito de Salvador, ACM Neto, na qual ele concedeu uma entrevista coletiva no dia seguinte à sua eleição. Acompanhei a equipe do Correio* e me deslumbrei não só com todo o trabalho dos jornalistas ali mas também com todo o luxo que compunha o político e sua moradia, bem organizada, decorada e com móveis confortáveis e que pareciam estar entre os melhores de suas categorias. Dias depois, surpresa! Fui mandado para a Baixa dos Sapateiros, cobrir o cadastramento dos vendedores ambulantes para o carnaval do ano que vem. Que diferença, não?

Antes de chegar lá, só sabia que havia acontecido uma confusão no início do cadastramento e a polícia militar teve que intervir. O que não poderiam antecipar pra mim eram as histórias das pessoas que estavam na fila da SESP, aguardando uma liberação para trabalharem numa festa enquanto são espremidos e passam sufoco, não por opção, mas por uma questão de sobrevivência mesmo.

A paisagem do alto do 22º andar de um prédio do dia anterior foi substituída pela rua 28 de setembro tomada de pessoas, que somavam entre 1500 e 2000, segundo a polícia militar. Ao invés de móveis confortáveis e luxuosos, alguns pedaços de papelão, que serviram de colchão para muitas pessoas passarem a noite enquanto guardavam seu lugar na fila.

Estava marcado para os portões serem abertos às 8 da manhã, e assim aconteceu, mas na busca pela prioridade para escolherem seus lugares de trabalho durante o carnaval, pessoas se aglomeraram na frente da SESP e qualquer tentativa prévia de organização de fila foi arruinada. A organização do cadastramento e a guarda municipal não foram suficiente para evitar o caos e a indignação de muitas pessoas.

Quando cheguei lá, o portão já estava fechado. Ninguém mais entraria naquele dia pois as 500 senhas já haviam sido distribuídas. Entre as pessoas que ficaram do lado de fora estava dona Clemilda. Conversei com ela algumas vezes ao longo das horas em que permaneci na Baixa dos Sapateiros e a cada pergunta sua história me impressionava mais. Dona Clemilda estava acompanhada de uma amiga desde às 9h da manhã do dia anterior (sim, quase 24 horas antes de ser aberto o cadastramento) e as condições para que ela permanecesse esperando ali eram angustiantes pra mim.

Foto: Reprodução/TV Bahia

Assim como muitas pessoas, seu colchão durante a madrugada foi um pedaço de papelão. Ela não tinha a quem recorrer em sua casa para que fossem revezar a espera ou mesmo levar alimentos para ela, por isso, desde que chegou, ela estava sustentada por aquilo que já tinha trazido: água, iogurte e pão. Em um de seus momentos que ela demonstrou maior irritação com os problemas no cadastramento ela afirmou que sofria de diabetes e hipertensão. Mas nem por isso ela pensava em sair dali enquanto não conseguisse ser atendida, afinal, chegar no final da fila no dia seguinte não seria bom negócio e a passagem de ônibus é muito cara pra ela desperdiçar uma viagem assim.

A essa altura acho que meu rosto deixou transparecer uma sensação de não estar acreditando naquilo. Isso deve explicar o fato dela, espontaneamente,tirar de sua sacola uma pequena bolsa cheia de remédios para seus problemas de saúde. Pouco depois ela também me mostrou o saco com pães (a essa altura praticamente em farelos) que a sustentava desde o dia anterior. Pronto, já não precisava mais de provas.

Por volta de 12:30 a situação estava mais tranquilizada. Por conta dos problemas, novas senhas seriam distribuídas ainda naquele dia. Uma fila foi organizada entre as próprias pessoas que esperavam na rua e então voltei para a redação. Do Correio*, escrevi sobre o que tinha visto pela manhã e liguei para dona Clemilda para saber como havia terminado sua odisseia. Por volta de 13h ela conseguiu a senha e deu o pontapé inicial para ganhar sua licença para trabalhar no carnaval: “Espero não ter que passar mais por uma situação assim”, finalizou.

O contraste entre as duas situações que passei ficou nítido: de um lado os luxuosos móveis do apartamento do novo prefeito de Salvador, do outro os colchões de papelão da Baixa dos Sapateiros. Espero que nos próximos quatro anos os políticos recentemente eleitos façam esse abismo diminuir. Dona Clemilda e as demais pessoas que aguardavam o cadastramento não merecem tamanha desigualdade.