Na última semana surgiu uma pauta que me fez pensar sobre algumas questões éticas do jornalismo e do próprio exercício do poder. Eu, Fabrina e Leo, recebemos a missão de cobrir a apresentação de um traficante que havia acabado de ser preso, considerado pela polícia como gerente do tráfico em três bairros de Camaçari, denominados PHOC 1, 2 e 3.
Fomos até a 18ª Delegacia de Polícia Civil (CP), onde se encontravam Uéberton Santos da Silva, conhecido como Maykinho, e sua parceira Fernanda Conceição dos Santos, acusada de utilizar uma conta bancária no nome dela para movimentar o dinheiro oriundo do tráfico. O Delegado detalhou como aconteceu a operação: ao chegarem à casa dos acusados com um mandado de busca e apreensão Uéberton tentou fugir e arremessou o saco com a droga num terreno vizinho, mas a polícia conseguiu capturá-lo.
Durante a apresentação, os fotógrafos e cinegrafistas se amontoavam para registrar os acusados, as bermudas e bonés de marca apreendidos sobre a mesa, os boletos bancários, cerca de 300 gramas de crack e 15 gramas de cocaína, além de uma quantia em dinheiro de cerca de dois mil reais. Fernanda se manteve de costas e não quis mostrar o rosto, enquanto Maykinho permaneceu de frente para as câmeras, sem demonstrar irritação ou qualquer outro tipo de sentimento por estar sendo fotografado. Armas? Nenhuma foi encontrada.
Em determinado momento o delegado revelou que este ano já ocorreram 10 homicídios na região onde o traficante atuava e, portanto, iria investigar se houve a participação dele nestes crimes. Foi exatamente este fato que levou nossa equipe a ter dois pontos de vista diferente.
No caminho de volta para Salvador conversamos sobre o que havia sido apurado e como iríamos escrever o texto. Então Leo sugeriu que “um dos ganchos” a serem abordados no primeiro parágrafo do texto poderia ser o fato do traficante estar sendo apontado como suspeito pelos 10 homicídios na região. Discordei por duas razões que na verdade estão ligadas entre si. Não vi aquilo como o fato mais importante dentro da hierarquia do que foi apurado e consideraria antiético colocá-lo desta maneira num jornal que é lido por dezenas de milhares de pessoas.
Digo que não vi como fato mais importante por conta das circunstâncias em que ele havia se tornado suspeito. Óbvio que antes mesmo de ser presos, ou da polícia começar a investigar os homicídios, Maykinho já era considerado suspeito, uma vez que ele supostamente comandava uma atividade ilícita na área onde aconteceram os homicídios, mas até o momento não existia nenhum indício forte da participação dele nestes crimes. Acredito que seria antiético trazer uma suspeita nestas circunstâncias como o gancho de uma matéria, ainda mais por que a própria falta de indícios a tornava menos relevante. Mais sensato seria colocar esta informação no terceiro ou quarto parágrafo, explicando o motivo da suspeita.
Durante a discussão Leo levantou um ponto importante: ele havia utilizado a palavra suspeito, e não acusado, o que de fato faz uma grande diferença, apesar de boa parte dos jornalistas fazerem má utilização destes termos. Pra quem não sabe, suspeito é aquele sujeito apontado pela polícia, ou testemunhas, como possível autor de um crime, enquanto o acusado possui provas de acusação contra ele. Mas o que estava em questão não era o uso da palavra, já que não existia nenhuma prova contra o traficante em relação aos homicídios, e sim a hierarquização e contextualização dos fatos.
Com isso não quero apontar o certo ou o errado, até por que se trata de pontos de vista diferentes, estou apenas defendendo o meu. Mas acho que isso serve como um exemplo de como funciona o olhar viciado da mídia neste tipo de cobertura, prevalecendo a demonização daqueles que já são marginais na sociedade. Não que tenhamos que defendê-los, até por que muitos deles cometem crimes bárbaros por motivos fúteis, mas pelo menos apontar as circunstâncias que os levam a cometer determinados crimes.
Uéberton, por exemplo, já havia trabalhado como cobrador de ônibus e motoboy, atividades em geral não muito bem remuneradas. Como tantos outros, ele percebeu que poderia ganhar muito mais no tráfico. Mesmo se comprasse uma pequena quantidade de droga podia revender pelo menos pelo dobro do preço, num negócio que não possui nenhum tipo de controle nem taxação e, justamente por isso, possibilita uma margem de lucro mais elevada que qualquer outra atividade comercial lícita. Essa é a sina de milhares de Maykinhos, que tiverem poucas oportunidades na vida e são presos quase todos os dias, apontados como gerentes do tráfico.
Na verdade, traficantes como ele ocupam apenas a ponta de um longo processo de produção e distribuição da droga até ela chegar nas grandes cidades e periferias, através de todo tipo de suborno. Os grandes operadores deste sistema (quem realmente lucra com o negócio trabalhando em atacado e detém poder e influência política) raramente são presos ou aparecem nos noticiários. Em geral, o poder público e a imprensa cobram essa conta aos pequenos e médios traficantes, que na verdade respondem só pela distribuição ao consumidor final do produto.