A mesa de trabalho de Salvatore Carrozzo é o sonho de qualquer aspirante a repórter de cultura. Cortesias, materiais de assessorias de artistas, CDs e livros que acabaram de ser lançados e DVDs de filmes que nem chegaram ao cinema.
Minha estreia na redação do impresso foi no Vida, acompanhando Carrozzo que acabara de chegar de uma viagem ao Rio de Janeiro, para entrevistar o gringo Taylor Lautner do Crepúsculo. Salvatore já foi recepcionado com quatro pautas: CD novo de Nando Reis, o documentário Onde a coruja dorme sobre Bezerra da Silva, a biografia do Carlos Marighella escrita por Mario Magalhães e a preparação da matéria que estará no jornal na época do lançamento de Amanhecer – Parte 2.
Ouvi atento o relato de Carrozzo sobre o ego dos artistas e as estratégias para entrevista (começar sempre com as perguntas burocráticas sobre o mais recente trabalho, para depois vir com as mais complicadas). Além disso, fomos no arquivo buscar fotos da época que Nando Reis tocou com os Titãs na Concha Acústica.
Claro que a vida de jornalista cultural não é sombra e água fresca. Mas quando se está perto do que se gosta, as horas passam voando!
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Nunca nos meus sonhos pensei cobrir um treino do Bahia. Sou completamente desatento a futebol… Mas como o negócio no Jornalismo de Futuro é diversificar, e quem sabe numa dessas eu acabe descobrindo uma paixão adormecida, resolvi, junto com minha colega Monique Lôbo, acompanhar Miro Palma no treino do Bahia na terça-feira (30).
Bom, não cheguei a descobrir vocação adormecida nenhuma, mas a experiência foi bem interessante! No alto da minha cultura esportiva baiana, confundi o nome do técnico com o de um jogador. Mas a maior lição dessa saída foi perceber como os profissionais de esporte dos veículos se ajudam e como na cabine de imprensa é, no popular baianês, “só resenha”. Um verdadeiro alento para quem já ouviu tantas histórias sobre egos e puxadas de tapete no jornalismo.
No mais, quando me perguntaram se era Bahia ou Vitória, respondi apenas: “Bom, sou um completo peixe fora d’água!”.
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Quarta-feira, acompanhei Luana Ribeiro. A pauta era o enterro de um homem que fora assassinado a facadas depois de brigar com o dono de um cão que havia brigado com o seu cão (!). Nada agradável. Como um jornalista não vive somente daquilo que gosta, fomos ao enterro.
Luana, uma das pessoas mais calmas e serenas que já conheci na área, foi da primeira edição do Jornalismo de Futuro e passamos o caminho todo trocando ideias sobre nossas expectativas na carreira.
Chegando no cemitério, logo na entrada, um choro sentido e desesperado ecoou. Era um dos parentes da vítima que saia amparado por uma senhora. Num esforço encabulado – natural para a situação -, Luana tentava conversar com algum familiar da vítima e só o que ouvíamos era recusa e palavras de revolta. Qualquer pergunta por mais delicada e cautelosa que fosse soaria ofensiva. Quem somos nós?
Nessas horas é difícil amar o jornalismo.
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Salvador, a capital mais caótica do Brasil, para o bem ou para o mal, vive problemas constantes com o transporte. Na véspera de um feriadão, nada mais rotineiro que o caos na saída da capital, por terra ou por mar. Linda Bezerra nos incumbiu de fazer uma matéria sobre a preparação das rodovias e do ferry boat para o Finados. Sim, o basicão, mas talvez o mais trabalhoso e didático exercício da redação.
Fizemos um questionário com todo tipo de perguntas possíveis, cujas respostas interessariam o leitor do Correio*. Ligamos para a Agerba (Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia), PRF (Polícia Rodoviária Federal), PRE (Polícia Rodoviária Estadual, cuja assessoria, por sinal, só poderia enviar um release por fax!).
Para completar a apuração, fomos no final do dia – eu, Monique Lôbo e Clara Luz – acompanhar a saída do ferry boat. Pessoas enlatadas em seus carros horas a fio… Entra gestão, sai gestão do sistema ferry boat e as coisas não mudam!