
Esta semana resolvi mudar de ares e combinei com Márcio, editor de fotografia do Correio*, que iria acompanhá-lo na seleção e edição das imagens. Passei da produção para a pós-produção do fotojornalismo. Passei do trabalho sob o sol a pino para o entardecer.
Mas se engana quem pensa que o trabalho do editor começa aqui. Na verdade, desde o dia anterior Márcio dá as coordenadas para os fotógrafos, enviando um email com a escala de cada um. Rafael 7h, Marina 8h, Saturnino 9h. Mais ou menos assim.
Durante a tarde ele decide o que será fotografado e também distribui a pauta entre os fotógrafos vespertinos. “Cada fotógrafo tem um perfil. Eu posso mandar Maguila ir fazer um retrato de um fotógrafo lituano (referindo à reportagem sobre Antanas Sutkus, feita por Tayse Argôlo), mas não é a dele”, comentou.
Além disso, Márcio visita os sites das agências de notícias, como a AFP, para ver as melhores fotos do dia que estão circulando. Ele imprime estas imagens e apresenta na reunião dos editores. Essas fotos são usadas, por exemplo, nas editorias de Brasil e de Mundo. Ontem, mais ou menos a 2 horas do fechamento do jornal, encontramos uma foto de um conflito na Turquia e substituímos por uma da Síria. De fato, uma foto muito mais interessante foi publicada. Quase ouvi a voz de Caco Barcelos dizendo “os bastidores da notícia”.
De 20 em 20 minutos alguém vem à bancada do editor para perguntar sobre alguma foto. A maioria enviou fotos de assessoria ou mesmo de agência e quer confirmar que foi recebido. Alguns problemas são enfrentados aqui pelo editor. Muitas vezes a foto vem sem pauta, sem nenhuma informação. Em outras, a qualidade é incompatível com a exigida pra impressão.
O que aconteceu de mais interessante ontem foi a discussão sobre a foto de capa. Claro, o assunto do dia era Sandy. Sem dúvida a matéria principal era essa. As fotos abaixo ficaram entre as selecionadas por Márcio e foram apresentadas a Sérgio. O editor de fotografia também é o responsável por comprar as imagens das agências. Foi um momento divertido na redação, em que várias pessoas foram chamadas a dar seus pitacos. A dos táxis venceu.
Três coisas me chamaram a atenção nesse momento. Primeiro, a participação ativa da equipe. Até o meu palpite foi ouvido. Segundo, a solução de Sérgio para o problema da foto escolhida. Apesar de serem símbolos de NY, os táxis estavam alagados em New Orleans, ou outra cidade próxima. A legenda “Os famosos táxis amarelos de NY no pátio inundado” ao mesmo tempo em que contextualiza a imagem, trazendo à memória do leitor a relação entre aqueles automóveis e a cidade em questão, também oculta o lugar onde estão ambientados. O terceiro aspecto foi o diálogo entre a foto de capa, que tratava de um assunto internacional com a manchete, a respeito de um problema local: mobilidade urbana.
Além de conversar sobre jornalismo, apuração e fotografia, durante as pausas para fumar de Márcio, também aproveitamos para falar de assuntos diversos, como a questão dos direitos autorais. Apesar de parecer muito sério à primeira vista, descobri que Márcio tem um humor ácido. Até muito ácido, diria. Quase no final do expediente, nos divertimos com os tumblrs favoritos deles. Sendo a maioria voltada para a temática do jornalismo, resolvi listar alguns deles.
governismodoencainfantil.tumblr.com
Das várias dicas que anotei durante nosso bate-papo, deixo a indicação do filme “O Jornal” (1994) dirigido por Ron Howard, que conta a história, segundo Márcio, de um editor de cidade que quer salvar o seu jornal da falência e luta principalmente contra os executivos da empresa. Pareceu muito interessante para jovens (e também antigos) jornalistas que se preocupam com o futuro da informação.