A vestimenta de Neto condizia com o luxo do seu apartamento. Sua roupa social predominantemente azul combinava com os belos móveis e a impressionante vista do local, que possibilitava nos levar do Farol da Barra ao Rio Vermelho num breve olhar pela janela, acompanhando toda a orla desse trecho. O fator novidade me fez prestar atenção no futuro prefeito de Salvador e seu patrimônio, mas acompanhar a cobertura da imprensa numa coletiva de um personagem tão relevante também era algo inédito pra mim.
A partir de 12:30 o apartamento começou a ganhar cada vez mais jornalistas, que não pararam de chegar até mesmo depois que a entrevista havia sido finalizada (sim, um fotógrafo chegou ao prédio quando seus colegas já deixavam o local). O anfitrião, como deve ser de praxe entre os políticos, cumprimentou todos eles logo na entrada, inclusive a mim. Alguns deles pareciam nem precisar de identificação para o entrevistado e Rafael Rodrigues, do Correio*, estava entre os que ACM Neto conseguia se referir pelo nome ao longo das perguntas. Provavelmente uma consequência do seu acompanhamento constante da política local. Se isso lhe garante alguns privilégios diante da fonte é difícil saber, mas o fato dela já saber seu nome já deve ser um bom sinal de proximidade.
As televisões tiveram seu espaço exclusivo para conversar com o atual deputado, seja para fazer entradas ao vivo ou gravar depoimentos para a sequência da sua programação, mas a maioria dos cerca de 30 profissionais que estavam ali dedicaram sua atenção apenas para a entrevista coletiva, que foi ali mesmo na sala de estar do apartamento. Com Neto sentado numa das pontas da mesa, os jornalistas rapidamente ocuparam os demais lugares do móvel. Câmeras e fotógrafos se posicionaram na ponta oposta e assim começaram as ser lançadas as perguntas.
As consequências do interesse da imprensa nessa entrevista podiam ser sentidos nos detalhes. A medida que mais jornalistas apareciam, um novo gravador era posicionado na mesa, chegando ao ponto que ACM Neto mal podia estender seus braços na mesa para não esbarrar nos aparelhos, que já eram mais de 15. O espaço na mesa para o gravador só não era mais disputado que a oportunidade de fazer a pergunta seguinte. Um respiro um pouco mais longo do entrevistado já podia ser a deixa para dois jornalistas puxarem questionamentos diferentes ao mesmo tempo. Ganhava quem conseguisse terminar a pergunta com a atenção de ACM Neto.
Os apelos discretos do anfitrião para que a imprensa o deixasse descansar fizeram a entrevista chegar ao fim. “Senhores, me liberem. Preciso de folga!”. Após dormir às 3h da manhã e acordar às 10h, ele parecia mesmo querer um dia de folga, sem demais compromissos oficiais. Para os jornalistas o dia estava apenas começando. Conversa com o editor, escrever a matéria, apurar mais informações, tudo em bem menos de 24 horas. ACM Neto terá mais tempo para seu trabalho, mas serão quatro anos difíceis com entrevistas coletivas para saciar a sede de informações dos jornalistas e de resultados para a população.