Sem dúvidas, a maior vantagem de trabalhar no radar do Correio 24hrs é a diversidade de notícias com as quais o jornalista se envolve durante um período curto. Os assuntos vão desde uma “velhinha” que ficou presa no elevador do prédio por conta de uma queda de energia até o conflito armado que toma conta da Síria há quase 19 meses e, segundo relatório do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) divulgado hoje, já deixou mais de 36 mil mortos no país. Este tema particularmente desperta meu interesse.
Em 2010 fiz uma viagem de turismo a Damasco, capital do país, e me chamou atenção o forte apelo populista do presidente Basshar Al-Assad e sua íntima ligação com as forças do exército. Fotos e pinturas de Bashar eram exibidas na grande maioria dos estabelecimentos em que eu entrava. Em algumas delas o chefe de estado estava acompanhado por oficiais de alta patente.
No pouco contato que tive com os sírios, fiquei com a impressão de que a aprovação do presidente ainda era bastante alta (em 2007 chegou a 97%), principalmente por conta da estabilidade em relação aos conflitos internos do país, que é formado por 65% de muçulmanos sunitas, 12% de muçulmanos alauítas (minoria à qual pertence o presidente e detém a maior parte do poder no país), 10% de cristãos, 9 % de curdos e 3 % de drusos. Quando voltei para o Brasil a última coisa que poderia imaginar era que dentro de alguns meses iria se iniciar um conflito tão sério naquele país.
Com um quadro étnico-religioso tão diverso, Bashar conseguiu conter durante anos a tensão entre os grupos, mas agora a situação é caótica. Os ataques já ultrapassam a esfera Exército versus Forças Revolucionárias e reacendem os conflitos étnicos adormecidos, principalmente entre sunitas e alauítas. Isso sem falar nas temidas shabihas, grupos supostamente armados pelo governo que funcionam como um exercido paralelo, não oficial. Segundo relatos, estes grupos já invadiram e decapitaram centenas de civis em vilas onde existe um apoio declarado a grupos da oposição.
Da mesma maneira, grupos opositores realizam diariamente ataques e bombardeios contra o exército e grupos de civis pró-Assad. Mesmo tendo sido assinado um acordo proposto de cessar fogo entre o governo e rebeldes, proposto pela ONU para o feriado islâmico do Eid al-Adha que aconteceu no último fim de semana, os ataques continuaram partindo de ambos os lados. Só na sexta-feira 70 pessoas morreram.
Os protestos surgiram apenas como uma forma de reivindicar melhores condições para a população, e não para contestar a legitimidade do governo. Mas o combate covarde e brutal pelas forças do governo acabou gerando uma guerra civil e minguando consideravelmente o apoio popular ao presidente, que agora é sustentado apenas pelo exército, setores alauítas e alguns grupos de empresários e comerciantes.
Além da enorme quantidade de mortes e todo tipo de abuso de poder que acontecem em uma guerra, preocupa a situação de Damasco. A cidade é considerada uma das 3 mais antigas do mundo, com pelo menos 6 mil anos de ocupação e inestimável patrimônio histórico e arquitetônico. Mesmo não apresentando um nível de conservação equivalente ao seu valor, o charme estava justamente no desgaste das construções pela própria passagem do tempo, mas agora vejo pela TV os grandes monumentos, mesquitas, souks e a antiga muralha contruída pelos romanos que cerca a cidade antiga, sendo totalmente destruídos por bombardeios e ataques aéreos.