Pauta Pipoca

Pauta Pipoca

Estreou nacionalmente ontem o longa-metragem “Gonzaga – de Pai pra Filho”, cinebiografia sobre a vida do sanfoneiro Luiz Gonzaga. O roteiro do diretor Breno Silveira (que dirigiu 2 Filhos de Francisco) é focado na relação conflituosa entre o “Rei do Baião” e seu filho, Luis Gonzaga do Nascimento Junior, Gonzaguinha, que ficou conhecido como cantor e compositor na década de 80. Além disso, a narrativa tenta mostrar a trajetória de Gonzagão, que nasceu numa família pobre do sertão de pernambuco e se tornou uma das principais referências da música brasileira de todos os tempos.

Nesta semana assisti à pré-estreia do filme e participei de uma entrevista com o diretor concedida ao repórter Roberto Midlej, do Correio*. Bastante simpático, Breno falou sem pudores sobre sua intenção de emocionar o público, mostrar o verdadeiro Brasil na tela e fazer cinema para todas as classes. Ele contou como surgiu a ideia da filmagem: uma enorme quantidade de fitas K7 gravadas por Gonzaguinha durante conversas com o pai, que chegaram até suas mãos. O fio condutor do roteiro, inclusive, é baseado na gravação destas fitas.

Apesar de ter aprendido muito sobre música com seu pai Januário, que consertava e tocava sanfona, Gonzagão sempre tentou afastar o filho deste destino. Queria que ele fosse “doutor”, talvez como uma projeção daquilo que não teve oportunidade de ser. A morte da mãe de Gonzaguinha e as inúmeras turnês pelo país obrigaram o sanfoneiro a deixar o filho com um casal de amigos durante a maior parte da infância. Somado a isso, a falta de carinho e atenção por parte do pai contribuiu para gerar uma relação ríspida e conturbada entre eles, que passaram quase toda a vida sem se entender.

Assista ao trailer do filme

O forte de Breno Silveira é explorar a emoção. Apontado pela atriz Cyria Coentro (que interpreta com muita força o papel da mãe de Gonzaga) como um diretor capaz de criar a “atmosfera que encaminha o ator para uma emoção verdadeira”, Breno revela que sua experiência de ter trabalhado com o documentarista Eduardo Coutinho o ajudou bastante no desenvolvimento da técnica e linguagem necessárias para registrar cenas dramáticas sem cair no clichê e no exagero. “Eu não dou o close no rosto e aumento a música simplesmente. As vezes é a câmera aberta que dá a real sensação do sentimento envolvido na cena, por exemplo”, explica o cineasta.

O destaque do elenco é Júlio Andrade, que interpreta Gonzaguinha na fase adulta. Em alguns momentos parece que estamos enxergando o próprio compositor na tela. Além de estar muito parecido fisicamente, Andrade consegue imprimir bem os trejeitos e a própria áurea de revolta do personagem. Já Chambinho do Acordeon, que é sanfoneiro de verdade e não ator, interpreta Gonzagão na fase de maior sucesso, mas deixa a desejar. Apesar de incorporar a simplicidade e o carisma do sanfoneiro, falta a profundidade necessária em algumas cenas.

O longa-metragem passa por momentos de drama, suspense e comédia, além de apresentar muita música, obviamente. O filme mostra que Gonzaga se tornou conhecido com ritmos de origem nordestina, como Vira e Mexe, Forró e Baião, mas durante sua trajetória também tocou Fado, Valsa e outros estilos, quando se apresentava nas ruas e bares do Rio de Janeiro em troca de algumas moedas.

Uma das melhores cenas acontece quando o “Rei do Baião” demite alguns integrantes da banda durante uma turnê, por que bebiam demais, e sai à procura de novos músicos. Durante um trecho de montagem que valoriza a sobreposição de ruídos em ritmo de baião e imagens em detalhe que vão passando rapidamente, Gonzaga encontra seus novos parceiros: um engraxate e um anão. Apresentados como Custo de Vida e Salário Mínimo respectivamente, os músicos acabaram acompanhando o pernambucano por um longo período.

Com uma fotografia que explora muito bem a luz natural do sertão e as cores vivas, o filme só peca em relação à continuidade histórica. Alguns acontecimentos se atropelam um pouco, mas de maneira pontual. O espectador que não conhece a trajetória de Gonzaga fica sem entender muito bem o motivo dos altos e baixos da sua carreira. Determinados posicionamentos dos personagens também carecem de uma clareza maior, mas dado o tamanho da biografia do sanfoneiro esses deslizes se tornam compreensíveis. O próprio diretor revelou que “várias estórias maravilhosas ficaram de fora”. De fato, é impossível contar tudo sobre ele num filme com menos de duas horas de duração.