Hagamenon Brito tinha a resposta o tempo inteiro: “O jornalismo tem que incomodar”. A frase veio ao longo da conversa do editor com os estudantes do Jornalismo de Futuro ainda no dia 08 desse mês, mas ajuda a explicar uma série de relatos que os demais editores e jornalistas da redação do Correio* vem fazendo ao longo das últimas semanas. O discurso deles deixa claro que jornalistas podem passar de bons conhecidos a inimigos ferrenhos em poucos passos. E nem precisam de maldade para isso.
Para as várias vertentes do jornalismo diferentes constrangimentos podem aparecer ao longo da rotina, por isso selecionei 5 maneiras de um jornalista se queimar, que se destacam pelo dilema na qual o jornalista é colocado: Entre manter a fonte ou dar a informação, não ser reprimido ou publicar a notícia, entre a cruz e a espada:
Celebridades: Ser jornalista também implica num relacionamento próximo com algumas celebridades, que pode se tornar inclusive uma amizade passadas algumas entrevistas mais descontraídas. No entanto, de repente você pode encontrar essa celebridade/amigo numa situação constrangedora, mas que seria a capa do dia seguinte. Então você está a um passo de, ou tomar um furo numa informação sobre uma fonte próxima, ou de quebrar a confiança dela permanentemente. Caso a segunda informação seja a escolhida serão duros anos até que essa celebridade volte a ser uma fonte fiel.
Torcedores: No esporte deve ser fácil. Escreva matérias falando do ambiente bom no Bahia e de polêmicas no Vitória. Pronto! Mesmo que a credibilidade de cada uma das informações seja provada, prepare-se para diversos e-mails cegados pela paixão clubística, dizendo que a redação conspira em favor de Ba ou Vi. E olha que o Correio* já foi ousado nisso! Veja a capa do dia seguinte a perda da final da Copa do Brasil pelo Vitória, no dia 5 de agosto de 2010. As diversas mensagens (negativas por parte dos rubro-negros e positivas por parte dos tricolores, é claro) via redes sociais já deviam ser aguardadas no momento que a primeira página foi criada.
Jogadores: O estádio pode estar vaiando, o técnico pode não gostar do seu trabalho, mas um jogador dificilmente vai aceitar críticas ao seu futebol vindas de um jornalista. Um crítico de arte não precisa ter um passado como grande artista, mas os atletas parecem exigir essa experiência no currículo de comentaristas esportivos antes que eles tenham o direito de falar do seu trabalho. Uma frase como “Você jogou onde pra falar isso de mim?!” deve ser comum nesse meio. Ainda pior para um jornalista deve ser ouvir “Essa é para calar os críticos!”, repetida quase em tom de vingança após grandes feitos do jogador, como se a crítica fosse uma opinião definitiva sobre ele e uma tentativa de acabar com sua carreira profissional.
Policiais e criminosos: Se o jornalista com pautas relacionadas a polícia, ele tem potencial para elevar o conceito de fogo cruzado a um outro nível. Enquanto delegados desejariam impedir a divulgação de indicadores de criminalidade na cidade em nome da sensação de insegurança, os criminosos tampouco desejam intrusos em sua área, investigando seus negócios. O repórter que lida com esses dois lados está então a uma denúncia de ser mal visto por um deles e possivelmente criar sérios problemas para si, inclusive em futuras coberturas.
Políticos: Incomodar quem tem poder sempre tem suas consequências negativas. No caso da política ainda existe o agravante de estar lidando com uma classe cuja popularidade está em baixa a muito tempo (e sem perspectiva de melhoras). Ou seja, incomodar é quase inevitável para um jornalista. Para as situações mais críticas, políticos podem estar munidos de beliscões e chutes dos seus seguranças para se protegerem do assédio das perguntas. E olha que não deve ser difícil chegar a esse ponto. É só esperar o próximo escândalo e escolher o político certo para entrevistar.
Incomodar e criar inimizades parece então ser quase da natureza do jornalismo, mas enquanto a notícia seja bem escrita e a informação estiver do lado de quem trabalha na redação, as consequências serão muito menos danosas, é claro. Haverá sempre o respaldo do seu bom trabalho jornalístico, e com uma boa apuração é construída a credibilidade diante do leitor, o que pode até te garantir um crédito quando fizer aquela crítica sobre o artista favorito dele.