O futuro do JPEG

O futuro do JPEG

Rafael Martins, fotógrafo do Correio*, faz uso do Shell. Foto: Amana Dultra

Muitos jornalistas, pesquisadores e também os focas se perguntam: qual o futuro do jornal impresso? Hoje eu gostaria de pensar sobre outra pergunta, quase inversa: qual o futuro das imagens digitais? E pensar sobre a pergunta aqui significa fazer outras perguntas, e não buscar respostas.

Desde que a microinformática transformou filmes em sensores e laboratórios de revelação em computadores, a técnica e o processo que envolvem o fotojornalismo mudaram muito. Além do aprendizado com a prática e com a vivência diária na redação, compreender algumas questões relativas a essa nova rotina do repórter fotográfico me interessa muito na experiência do Jornalismo do Futuro.Ao mesmo tempo em que posso me colocar como observadora, também me coloco como objeto nessa investigação.

No Correio*, o programa utilizado para passar as fotos do cartão de memória para o computador é o Shell. Esse software faz parte do sistema GN3 que é usado também pela diagramação.

Quando o fotojornalista volta para a redação, depois de cobrir uma pauta, ele transfere as imagens em JPEG usando um usuário próprio. Cada funcionário do jornal tem o seu login e cada login só pode ser acessado por uma pessoa por vez. O usuário dos fotógrafos tem um canal direto com o computador dos editores de fotografia e, através do Shell, as fotos são enviadas para eles.

Fiz este procedimento pela primeira vez na semana passada. Basicamente, é preciso renomear as fotos para a data seguida de suas iniciais e, em seguida, os arquivos são transferidos pro Shell, onde os fotógrafos identificam as fotos dizendo qual é a pauta, colocando seus créditos e também sugerindo uma legenda. É importante colocar o lugar onde as fotos foram tiradas e também o nome das pessoas fotografadas. Depois, o fotógrafo seleciona as fotos que serão enviadas para o computador de Sora e Márcio e as encaminha. Tudo simples. Três botões, dois atalhos.

Duas coisas me intrigaram neste modo de fazer do jornal líder na Bahia. A primeira é a edição das imagens e a segunda é que as fotos são tiradas em formato JPEG.

Simplesmente não há possibilidade para o fotógrafo editar suas imagens. Nem um reenquadramento sequer é possível fazer. O fotômetro precisa ser preciso, não há Santo Expedito que dê jeito. O Shell, diferente do Lightroom – um programa da Adobe voltado para fotógrafos – , apenas funciona para indexar, catalogar e selecionar as fotos. Tudo isso em rede com o computador dos editores. Não há opções de ferramentas, nem mesmo básicas como brilho e contraste, encontradas nos mais simplórios programas de imagem do Windows, como o Picture Manager. Esta atividade é relegada a outros funcionários. Claro que o tratamento final para impressão precisa ser feito por quem domina o assunto, mas às vezes é preciso fazer um ajuste aqui, outro ali. Até que ponto isso pode prejudicar o trabalho ou mesmo limitar o fotojornalista?

Quanto ao JPEG, ele é um formato que comprime a imagem. Comparado ao RAW, outro tipo de formato para imagem, ele é bastante limitado para a edição.

Fiquei curiosa para saber como o Correio* lida com a questão do armazenamento destes arquivos. O que me preocupa é que não se faz uso de palavras-chave, não há um arquivamento apropriado do material que interessa ao jornal. E então, como será a memória imagética do Correio* daqui a 20 anos?