
Foto: Patrick Silva
Ela aparece de trás de um telão e vem andando. Passos firmes e rápidos. Das fileiras apinhadas de cadeiras dos dois lados da faixa branca, mulheres pesadamente maquiadas e vestidas observam tudo. Um pé em frente ao outro, a modelo segue naquele andar forçado, que ginga o corpo e sobressai suas curvas pelas fendas vazadas do fino vestido laranja. Do pescoço, um enorme colar com pedras de cores cítricas decai sobre seus seios, que balançam libertos por baixo do pano. A jovem posa por breves instantes no ponto marcado para os fotógrafos, que retribuem com o som frenético dos cliques. Alguns desses sons são meus, ecoam da passarela do Yacht Summer Fashion 2012. Evento que, apesar de ser a beira-mar, me levou para o mais longe d’água que um peixe jamais esteve.
Num Setembro longínquo de 1968, o Miss América (do Norte) levava outras modelos a uma outra passarela. Do lado de fora, feministas protestavam contra a ditadura da moda e a vulgarização da imagem da mulher. Queriam queimar sutiãs em praça pública. Os anos passaram, as mulheres conquistaram espaço e prestígio. Hoje são mães, chefes de família, líderes de empresa, presidentes. Grandes cargos para grandes mulheres. Na passarela do YSF o sutiã também pegou fogo. Os corpos altos e magros (alguns até demais) atravessam a passarela com o andar convicto de uma indústria que, voltada majoritariamente para o público feminino, movimenta milhões e paixões a cada estação.
Os homens são coadjuvantes nos três dias do único desfile de moda anual de Salvador. Com uma ou outra exceção, mais peixes que não sabem pra onde pulam nas areias da moda. O cantinho da imprensa na frente da passarela é nosso refúgio. O espaço é pequeno, somos muitos, mas pelo menos alí podemos assumir nossa ignorância. “Esse aí que vem é roupa de festa, depois tem jóia. Não conta a roupa”. Os que estudaram a pauta antes explicam pros colegas o que vem. Gabi Cruz, editora do Bazar*, chega do meu lado e avisa sobre o flash: a iluminação é cênica, não precisa. Gabi me explica também que o YSF é um desfile de vitrine, não de tendências. O que eu vou clicar hoje já estará na loja amanhã.
O modelo vêm a passos rápidos, para por instantes no X marcado para fotos e segue seu rumo até o final. Antes de chegar ao meio da pista, o próximo já está dando a sequência. É tudo muito rápido, não dá pra inventar nos enquadres e nos cliques pra não perder o modelo. Em 10 minutos três marcas passaram pela pista. É tipo futebol: piscou, perdeu o lance, só tem replay em casa. Como eu não tinha compromisso com pauta, estava livre disso. Tentei enquadres diferentes, fiz público, tentei umas com longa exposição. Um privilégio pra poucos, que segue abaixo.