Como disse no último post, minha estreia no Correio* foi a apuração de uma pauta sobre homicídio. Confesso que cheguei à redação no dia seguinte torcendo para que fosse cobrir algo mais light. Mas dizem por ai que o tal de Murphy criou uma lei para pregar peças na gente. É um brincalhão mesmo, viu?
E lá vou eu investigar mais um crime. Desta vez, duas jovens, vítimas de um atentado. Segundo a polícia, elas foram esfaqueadas por vizinhos na casa em que moravam, perto da Estrada Velha do Aeroporto, na Vila Coração de Jesus. Deijiane, 19 anos, morreu no local. Sua namorada, Daiane, 21, estava ferida no Hospital do Subúrbio. Os acusados fugiram na madrugada. A princípio, suspeitava-se de homofobia. (Patrick inclusive já falou aqui sobre o enterro da moça).
A tarefa era acompanhar Luana, filha da primeira turma do Jornalismo de Futuro e hoje repórter de Cidade. Leo Moreira, colega do projeto, também foi junto. No caminho, ela nos deu ótimas dicas: observe o ambiente e tente ganhar a confiança das pessoas. O carro da reportagem já chama a atenção por si só. Portanto, sem crachá e sem caderno, para não assustar mais. Anotado.
Na medida em que nos aproximávamos do endereço, dava pra perceber como os moradores da Vila são esquecidos pelo poder público. Casas precárias, asfalto inexistente…duvido que tenha saneamento básico. O motorista parou, descemos e abordamos um grupo de 6 ou 7 pessoas, em frente a um muro. As expressões desconfiadas foram inevitáveis. Por coincidência, quase todos eram parentes de Deijiane. Obviamente, muito abalados e com medo de oferecer detalhes, já que conheciam o principal suspeito.
No começo, fiquei um pouco acanhada, observando. Não era uma situação muito confortável, eu diria. Mas Luana nos deu a liberdade para questionar também desde o princípio. E aos poucos, notei que os familiares estavam se abrindo mais espontaneamente. Então pisei melhor no terreno e me senti livre para tirar as dúvidas. Era preciso ter jogo de cintura e cautela para fazer com que eles falassem, mas sem forçar.
Agradecimento
Pedimos para conhecer a casa na mesma hora em que a equipe da TV Bahia chegou para filmar, o que atraiu a atenção de mais gente. Era um barraco apertado. Não coubemos todos e mal passei do portão. Quando saímos, alguém apontou: “Aquele lá em cima é o irmão da vítima”.
E na minha calourice, pensei: “Vi um cadáver ontem, me deparei com homens mal encarados aqui e tudo ok. Falar com ele agora não deve ser pior do que ver sangue”. Quem disse? O rapaz foi até bem solícito conosco, mas o seu olhar era desconcertante. Olhar de quem chorou nas últimas horas. De medo, revolta. Eu estava, no mínimo, constrangida. Quem era eu pra ficar insistindo em perguntar sobre a dor daquela família? Ainda mais sabendo que ele estava com medo da exposição. Qual o direito que eu tinha de tentar obter qualquer vestígio de informação de uma pessoa que sem estrutura emocional para me responder? Tentamos ser bem cuidadosos, mas a questão ainda martelava a minha cabeça.
Foi quando chegou Marina, fotografa do Correio*, que foi guiada por Luana até a casa, para ver se iria render alguma boa imagem. Eu e Leo ficamos sozinhos com o irmão. Foi quando no final, ele me agradeceu e disse: “Tomara que o trabalho de vocês ajude na investigação do caso”. Pronto. Não teve remédio mais certeiro para tirar o peso da minha consciência.
Motivo do ataque
Segundo o depoimento inicial de Daiane, o crime foi de caráter homofóbico. Mas todas as pessoas que entrevistamos afirmaram que as jovens eram queridas na comunidade e nunca sofreram preconceito. Alguma lacuna precisava ser preenchida. Dito e feito.
Seis dias depois, três acusados foram encontrados em Serrinha, mas a versão deles foi diferente. De acordo o depoimento feito à polícia, Daiane tinha a intenção de chefiar o comando de drogas da Vila Coração de Jesus. Dias antes do crime, um dos rapazes teria sido convidado para atuar com ela, mas se recusou, o que gerou desentendimentos. O trio vai responder por homicídio no Complexo Policial da Baixa do Fiscal.