Nem eleições, nem novela nova, nem lançamento da Apple, nem mensalão, hoje o tema é ‘morte coletiva’. Tema forte, e polêmico, mas ausente na grande mídia. Talvez por ser de índios, talvez por estar muito longe dos grandes centros urbanos, talvez por falta de interesse. O que me chamou a atenção hoje na redação do Correio* 24 horas foi, sem dúvida, o interesse particular de alguns jornalistas do “aquário” por esse tema árido. No meio da correria de apuração de dados, com pautas caindo e outras tantas surgindo, o termo ‘suicídio coletivo de índios’ ecoou deixando um silêncio atípico. Esse fato era novo para mim, e, como boa “foca”, fui procurar a fundo do que se tratava. O fato é o seguinte: a Justiça Federal decretou a expulsão de 170 índios Kaiowá-Guarani da terra onde vivem, à margem do Rio Hovy, no Mato Grosso do Sul. Diante da pouca visibilidade na mídia, os Kaiowá-Guarani elaboraram uma carta-testamento há duas semanas onde afirmaram:“Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal”.
A partir dessa carta, o termo “suicídio coletivo” foi utilizado em textos jornalísticos, blogs, e nas redes sociais, ainda sem alcançar a grande mídia. Foi motivo de nota de esclarecimento no site do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), sobre o “suposto suicídio coletivo”, alegando que o termo utilizado pelos Guarani-Kaiowá era “morte coletiva”. Se é suicido ou morte coletiva não cabe a mim julgar, mas o que esse torna esse fato pontual digno de postagem, na minha visão, foi algo que aprendi no meu primeiro semestre de faculdade, na matéria Teorias do Jornalismo: os critérios de noticiabilidade. A partir deles podemos destacar o que é mais relevante, o que deve aparecer primeiro, o que é notícia e o que não é.
Hoje iria escrever sobre a visita da equipe à gráfica que imprime o jornal Correio, mas me deparei com um texto velho e sem cores. Decidi continuar o esboço que já tinha começado, até que me deparei com o texto de um jornalista pedindo atenção ao tema dos índios. Resolvi unir o que já tinha escutado horas antes na redação, à curiosidade acerca dos fatos. E fui apurar. Quando li a carta original soube que era isso que precisava ser dito. Descartei o início de texto sem vida, e comecei a lapidar esse, com certo receio, mas com a certeza de quem quer ser lido. Segue a versão original:
Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil:
“Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay”