Batizada

Batizada

“Tenho um desafio bom pra vocês”. Foi assim que eu e Henrique fomos recebidos na redação por Linda Bezerra, na manhã de terça-feira (15). Fiquei confabulando o que seria, até que foi dado o veredito. Pauta: um homem foi assassinado enquanto caminhava na orla de Patamares naquele dia. Objetivo: apurar os detalhes sobre o crime. Primeira observação: o corpo ainda estava lá e precisávamos correr antes que fosse levado para o Instituto Médico Legal. Segunda observação: iríamos sozinhos.

Linda nos deu várias dicas sobre quem e como entrevistar. Apesar de ser um excelente roteiro, a palavra “sozinhos” ainda me deixava um pouco apreensiva. No dia anterior, saí com o repórter Leo Barsan, para acompanhar uma matéria sobre segurança pública, no Pelourinho. Foi tranquilo, pois estava com ele e conversamos apenas com alguns PMs e comerciantes da região. Sem sangue. Sem mortes.

Quando chegamos em Patamares, vi uma multidão de curiosos amontoados perto dos coqueiros. Embaixo, na ciclovia, muitos repórteres. Mais à frente, em volta do corpo, policiais civis e peritos. “Quanta gente”, pensei. Descemos do carro e ficamos junto dos outros jornalistas. No meio de todos aqueles rostos, reconheci um que me encheu de alívio. Era Leo Barsan, no canto, com seus inseparáveis caderninho e caneta. Ufa! Mas ele estava lá desde cedo e já tinha conversado com o delegado e testemunhas. Além disso, a intenção era que fôssemos autônomos para investigar, sem depender do trabalho dele.

Quando os policiais se afastaram um pouco, olhei para o  homem estirado no chão. Aparentava uns 50 anos e vestia um traje típico de quem faz cooper. Do lado da cabeça, uma poça de sangue e outras coisas que meu estômago embrulhado não me deixa definir.  E eu que geralmente passo mal ao ver um cadáver, tive que respirar fundo várias vezes. Os colegas jornalistas de futuro até brincam comigo, dizendo que foi um batismo, já que fui a primeira a sair para apurar um crime.

Entendendo o caso

Fomos conversar com algumas pessoas que estavam próximas, para obter informações iniciais. Pouco depois, avistei o delegado Alex Gabriel, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Toda a imprensa praticamente voava em cima dele e eu decidi ficar um pouco escondidinha, apenas ouvindo o que era dito. Quando aquela avalanche de jornalistas finalmente se afastou e percebi que ele não iria sair dali tão cedo, o chamei para fazer minhas próprias perguntas.

Segundo testemunhas, a vítima foi abordada por volta das 6.30h, quando dois homens chegaram de moto e um deles disparou três tiros. Dois nas costas e outro na região da clavícula. Como ele estava sem documentos e não pôde ser identificado na hora, seguiu para o IML. O delegado reforçou a probabilidade de um crime “encomendado”, pois os pertences não foram levados.

Quase toda a imprensa tinha ido embora, mas o discurso do delegado não me satisfez. E foi quando avistei uma barraca na areia, a poucos metros dali. “Não é possível que os vendedores não tenham visto nada”, pensei com meus botões. E bingo! E não é que um dos rapazes viu o episódio, me contou tudo com outro olhar não oficial e ainda soltou um “minha filha, esse coroa passava aqui todos os dias e sempre me dava bom-dia”?

De farol a farol
A vítima não tinha sido reconhecida até então. Enquanto isso, eu e Henrique nos juntamos a Leo para ajudar na sua matéria, que iria focar na segurança da orla. Foi muito bacana, pois entrevistamos diversos personagens inusitados. E claro, percorrer desde o Farol de Itapuã até o da Barra também serviu para reforçar o nosso bronzeado. (estávamos com o motorista, é claro).

E como dizem que a primeira vez a gente nunca esquece, olha só a o resultado desse batismo! Eu e Henrique saímos como colaboradores da matéria que ocupou as duas páginas da seção Mais, na edição do dia seguinte.

Jornal Correio*, seção Mais, dia 17/10/2012 (Foto tirada com um celular)

ps- Dois dias depois, o corpo foi identificado. Segundo o IML, o homem, que se chamava Amilkar Alberto Ibarra, tinha 49 anos, era argentino e músico. Deixou a esposa, com quem morava no bairro da Boca do Rio, e uma filha de 6 anos.