Quinta dos Lázaros

Quinta dos Lázaros

Foto: Patrick Silva

Fundado há mais de 200 anos, incrustado entre alguns dos bairros mais populosos de Salvador, o cemitério público Quinta dos Lázaros não tem a pompa dos irmãos ricos Jardim da Saudade e Campo Santo, mas é um dos que cumprem uma importante função social na cidade: dá o “lar definitivo” àqueles que não tem onde cair mortos. Ontem, 17 de Outubro, fui ao “Quintas” com a reportagem do Correio* acompanhar a chegada de Djeane Ferreira Lima, uma de suas novas moradoras.

Djeane tinha 19 anos e estava na casa onde vivia com Daiane Almeida dos Santos,  sua namorada, no bairro de Vila Coração de Jesus, quando dois homens entraram, mataram-lhe a facadas e feriram sua companheira. Até o momento em que escrevo este post, só se sabe que um dos acusados atende por Alan. Suspeita-se de crime de homofobia, claro. Mas a reportagem também apurou com pessoas próximas as versões de que Alan teria batido boca com Djeane no mesmo dia mais cedo e de que ele teria ciúmes por conta de um flerte não correspondido. Nenhuma das versões ainda é consistente.

Chegamos ao cemitério antes das 15h. Eu, o repórter fotográfico Maguila e a recém desmamada do Jornalismo de Futuro, e agora estagiária, Thais Borges. Estava cheio. Na primeira meia hora devo ter cruzado com uns dois ou três cortejos fúnebres rumo aos sepultamentos. A dor ecoa por todo canto através dos gemidos e das lágrimas dos parentes mais próximos aos mortos e quando passa alguém mais abalado todo mundo se compadece. Ví tirarem três vezes, desmaiado, da sala ao lado da que velavam Djeane, um jovem de uns 17, 18 anos. Estava velando a mãe.

É em gente assim que Thais vai ter que chegar pra conversar. Todo mundo detesta fazer isso. Maguila, que é famoso e referenciado no meio jornalístico pelos muitos anos de experiência com cobertura de polícia, diz, no carro ainda, que se fosse por ele o jornal nunca vinha cobrir essas coisas. Um repórter de TV (daqueles popularescos violentos do fim de tarde) diz a mesma coisa: veio a contragosto.

A mãe de Djeane, de preto, se apóia em amigas para entrar no cemitério. Foto: Patrick Silva

A mãe está tão abalada que entra no cemitério escorada pelos ombros por outras duas mulheres. Tenho que fazer a foto. Bate uma certa vergonha de estar alí procurando o melhor pior momento pra clicar. A câmera faz seu barulho característico e as pessoas olham feio de rabo de olho. Nos chamam de urubús. Ninguém da imprensa cola na pobre senhora, que nos ignora, mas mesmo assim o clima fica (mais) tenso.

O Quintas possui locais diferentes para as despedidas, a depender de onde descansará o novo condômino. Quem consegue uma cova rasa, que é gratuita, é velado numa sala comunitária onde tem espaço para até 3 corpos ao mesmo tempo. A família de Djeane comprou uma carneira (uma gaveta de concreto numa enorme parede),  tem direito a uma sala privada para se despedir. A imprensa não chegou perto dessa sala. Pedido dos parentes.

Thais tenta pescar depoimentos aqui e alí. Nada. Fico de longe só olhando, pra não assustar o pessoal com a câmera, mas não adianta muito. Quando ela quase fisga um irmão, as equipes de TV aparecem e o menino foge. Aparece um vizinho que dá depoimento pra todo mundo. Ficamos parecendo rêmoras ouvindo tudo por trás de um câmera. O cara diz que não ouviu nada, que as meninas não estavam em casa quando morreram. Claro que estavam, vimos as fotos da casa cheia de sangue (Fabrina, aqui do Jornalismo de Futuro, foi na casa e certamente postará sobre isso num futuro próximo). Thais me olha torto e se afasta. O sujeito não sabe de nada.

17 horas. O cortejo de Djeane sai do velório com seu caixão rumo à carneira. À frente, andando de costas, só eu e um cinegrafista da Band. O silêncio é quase palpável. Não há carros, pássaros, vento, conversas, choro, nada. Apenas o som dos nossos passos. Os cliques da minha câmera parecem trovoadas. Isso me intimida e acabo fazendo poucos. O Quintas é grande, a gente anda um bocado antes de chegar ao buraco aberto na parede.

A “porta” de concreto aos pés de Djeane não tem seu nome, não tem mensagem carinhosa. Não deve ter dado tempo ou a família não teve dinheiro pra fazer. Enquanto o coveiro cimentava as bordas da pedra eu encarava a única coisa gravada nela, que daqui em diante será a alcunha de Djeane para qualquer passante: o número 46.