Poucos dias após as eleições municipais que apontaram para a necessidade de segundo turno em Salvador, foi o editor de política do Correio* quem conversou com os estudantes do Jornalismo de Futuro. O resultado das urnas ainda é o que ocupa boa parte das conversas entre os soteropolitanos e do noticiário local, então seria óbvio pensar que esse seria o foco da discussão. Estava enganado. Com o acervo de experiências incríveis de Jairo Costa, quem se importa com Neto ou Pelegrino?
No Brasil já ouvimos sobre dinheiro na cueca, compra de parlamentares, e por isso Jairo não deixa de apontar para a importância de prestar atenção nos detalhes ao longo de intermináveis discursos dos parlamentares. Um moço que sirva café aos vereadores na câmara dificilmente será citado num jornal, mas pode ser peça fundamental para o jornalista. Ele pode servir uma xícara de café acompanhada de uma pista que dê início a uma série a uma série de investigações relevantes. Mesmo sem ser creditado ao final de uma reportagem, o repórter lembrará por muito tempo dessa pessoa que por acaso ouviu falar de algo e o ajudou a ganhar a capa do dia.
Pode levar meses até que algo de grande impacto seja descoberto, mas é o jornalismo político que “mexe com as estruturas do poder”, como Jairo Costa fez questão de dizer com certa dose de orgulho. Em sua busca por novas informações, ele parece ser tão inquieto como enquanto conversava com os estudantes do Jornalismo de Futuro. “Pentelhar funciona”, afirmou Jairo. Afinal, ligar a cada 30 minutos para a fonte em busca de uma informação deve fazer com que ela queira se ver livre de você em algum momento.
Por sinal, devem ser as fontes relutantes em oferecer informações que fazem algumas matérias de denúncia política se arrastarem por tanto tempo, daquela dica do personagem menos esperado à publicação no jornal. Então enquanto se discutem as conjunturas e alianças políticas para o segundo turno em Salvador, diversas denúncias podem ser preparadas para sacudir as bases do poder quando engatilhadas nas páginas dos jornais.
As caras e bocas foram frequentes ao longo da tarde. As risadas acompanhadas de gestos contundentes com os braços enquanto contava suas histórias talvez sejam consequência do prazer que ele admitiu sentir quando consegue derrubar uma pessoa do poder. Estar em busca de novas informações que normalmente incomodam os políticos tem seu preço, mas apesar dos beliscões, chutes e demais ofensas que Jairo já tenha sofrido na apuração de suas reportagens, não se trata de algo pessoal. A vontade de combater as práticas incorretas e a função social do seu trabalho são maiores do que as ameaças vazias que ele já sofreu.