Até que ponto o jornalista expressa-se com sua opinião própria, e onde começa a fala dos personagens que dialogam com ele? Essa pergunta é apenas um início de conversa quando trata-se de Hagamenon Brito, editor de cultura do Correio*, e crítico cultural.
A minha primeira impressão do editor foi apenas visual: ele usava uma blusa da banda Radiohead preta, que contrastava com sua cor de pele clara, calça jeans e óculos de acetato. Não fossem pelos anos a mais, e cabelo de menos, poderia facilmente confundi-lo com um estudante de comunicação de hoje em dia. Mas a roupa torna-se acessório quando ele começa a falar. Dentro do seu discurso não há só o editor falando. Há também o escritor, o crítico, o amante de Rock e Black Music, o contador de histórias, colecionador de inimigos (devido às críticas a CDs, shows, livros…), e os personagens que ele mesmo cria em sua coluna no jornal. Com formação em jornalismo pela Faculdade de Comunicação da UFBA, sua experiência profissional começa no estágio em jornal impresso e dura até 1993. A partir desse ano, começa a trabalhar na editoria de cultura do Correio, até então da Bahia. Torna-se repórter especial, na intenção de não parar de escrever, e paralelo ao jornalismo forma-se crítico, quase ‘autodidata’ em sua percepção. Mas o que mais me chamou a atenção durante a “apuração” da sua vida foi a descoberta que o termo axé music, tão banalizado atualmente, surgiu da cabeça dele. Na raiz histórico-cultural africana o termo axé significa energia positiva, mas aliada ao termo inglês music, ganha um novo tom para descrever o ritmo predominante no carnaval baiano. Esse termo reinou na boca de muitos críticos, não só culturais, durante muitos anos, e até hoje o conhecemos de forma pejorativa.
Além dessa criação, da responsabilidade de editar a parte relacionada à cultura do jornal e apresentar dois programas de rádio, Hagamenon escreve uma série de colunas em primeira pessoa onde agrega cultura pop, vivências pessoais, e referências a livros e discos. Para o futuro reserva o livro com suas publicações intitulado Isso é apenas Pulp Fiction, e afirma: “Árvore não quero plantar. Filha já tenho. E moro com dois gatos”. Juro que quando perguntei sobre seus planos não imaginei ouvir a resposta para o clichê moderno das três coisas para se fazer antes de morrer. E nessa hora não soube mais dizer se era a sua vida real ou se começava mais um personagem…
*Referência ao albúm da cantora Marcela Bellas “Será que Caetano vai gostar?”, cantor o qual Hagamenon afirma que o detesta.