1000 Histórias

1000 Histórias

 

Repórteres apresentaram o especial 1000 vidas. Foto: Patrick Silva

Foto: Patrick Silva

“Vocês não vão acreditar nas bocadas que já me enfiei pra apurar matéria. Teve uma pauta –e era light, casarões abandonados no Comércio –que o morador foi me levando por umas escadas e só deu tempo de colocar o crachá no bolso antes de dar de cara com um ponto de tráfico. Tinha gente usando, comprando, vendendo…”. Victor Uchoa, aquele cara gesticulante e de linguagem coloquial sentado na ponta da mesa, aparenta mais ser estagiário do que alguém que já estourou muitas bombas no Correio*, já derrubou figurão de cargo público e fez no ano passado, com o colega Juan Torres, o premiado especial 1000 vidas. E era sobre o especial que eles vieram conversar com a gente na última quarta-feira, dia 10.

Juan também tem muita história pra contar. Mas é mais travado, só se solta quando a gente aperta. Carioca, veio pra Salvador apaixonado por uma baiana e desiludido com jornalismo esportivo. Adora números, dados, gráficos. Foi dele a idéia de catalogar numa planilha dia-a-dia os homicídios que a secretaria de segurança pública colocava, muito a contra-gosto, no site do órgão. “A gente estava batendo papo  sobre como usar aquele monte de números quando saiu a idéia do 1000. Pelo andar da carruagem, ia chegar lá pra junho, julho [de 2011]. Dava tempo pra planejar bastante e montar um especial”, lembra o repórter.

Segundo a dupla de repórteres, havia uma expectativa “meio mórbida” de que o milésimo homicídio fosse de uma pessoa que representasse o perfil dos outros 999. E acabou sendo. Ueslei Moraes, 24 anos, morador do bairro de Pau da Lima, foi morto a tiros perto de casa. Nunca se descobriu quem atirou e nem porque. A imprensa não cobriu e nem o Correio* iria contar essa história se não fosse a coincidência da estatística, porque infelizmente esse tipo de crime já ficou banal.

“O corpo dele ficou um dia e meio sem refrigeração no IML, porque estava tendo uma paralisação na época. Quando o irmão tirou a tampa do caixão no velório, era inacreditável a quantidade de insetos que estavam alí dentro. O cheiro então… A sala era pequena, foi Baygon pra todo lado”, contou Juan.

Pergunto como eles foram parar em polícia, já que ambos saíram da faculdade pensando em lidar com esportes. Victor me corrige dizendo que eles são de “Cidades”, o Correio* não tem caderno específico para polícia, e continua falando do caderno. “Cidades é um caderno que te coloca mais na realidade. Deixa com o pé no chão mesmo. Teve uma vez que fui fazer matéria duma senhora que sustenta cinco netos com R$35 reais por mês do bolsa família. A filha morreu, assassinada, e ela acabou pegando os meninos pra criar. Perguntei quanto eles consumiam por dia: 1 kg da carne, 1 saco de arroz e um de feijão. Depois que saí da casa dela, parei na primeira mercearia pra ver quanto custava. Dava R$17 reais por dia. Quando a matéria saiu, teve gente ligando pra redação querendo ajudar. Um cara prometeu levar o carro cheio de comida e eu acabei indo junto. Chegamos lá a senhora agradeceu, chorou e, vocês vejam como é o coração desse povo, queria fazer um almoço pra todo mundo”. Victor terminou a história e bateu aquele silêncio na sala, chega o ar ficou meio pesado. Eu, que sou de choro fácil, quase passo vergonha.

Tiveram muitas outras histórias durante as quase quatro horas de conversa. Além do 1000 vidas, falamos de fontes, de apuração, dos riscos… Mas de tudo, eu fiquei mesmo abalado foi com o caso da senhora. Essa, infelizmente, é uma história muito comum em Salvador e pelo Brasil a fora. E se já é dura de ouvir, imagina quando for minha vez de contar.