Depois de ser contagiada pela energia pulsante de Linda Bezerra durante a conversa na sede do Correio* no dia 1º de outubro, tive o prazer de aprender mais sobre jornalismo com Eliane Brum no Conversas Plugadas.
Não foi a primeira vez que ouvi a jornalista gaúcha. Em 2011, participei de sua palestra O olhar e a escuta: em busca do personagem singular no Intercom Nordeste. Ontem, novamente, me reencantei com o jornalismo através das palavras de Brum. Ouvi algumas de suas histórias, já conhecidas minhas, e me emocionei como se as descobrisse naquele momento.
Desta vez, na busca de complementar e confrontar o que aprendi na segunda-feira, fiquei mais atenta sobre o que foi dito a respeito da temática do bate-papo que os Jornalistas do Futuro tiveram com a Bezerra, editora de produção do Correio*: apuração, pauta e reportagem.
A escutadeira, como a própria Brum se nomeia, falou sobre o desafio de antes de “ir para rua”, atravessar a própria rua – a rua de si mesmo –, em direção à rua da vida, ao mundo do outro. Seu processo de apuração, baseado em um olhar e uma escuta cuidadosos, começa nesse esvaziamento de si mesmo e entrega ao mundo do outro, seguida de um retorno ao seu próprio mundo.“Quando volto para casa, depois de uma viagem ou de uma entrevista, me sinto grávida. Sou muito visceral. Minha mãe, minha filha, meu marido me perguntam como foi, e tudo o que consigo é balbuciar. A coisa só acontece quando escrevo”, contou. Para ela, é a qualidade da escuta que define o quanto conseguiremos nos aproximar da verdade. “Não uma verdade absoluta ou única, por que isso não existe”, explicou, “mas a verdade do outro”.
É esta apuração dedicada que aparece como elemento-chave do modo de fazer jornalístico de Brum. A apuração de cada gesto, cada cheiro, cada som. Apuração do som das palavras e também do som do silêncio. Brincando, ela disse que nenhum prêmio Nobel consegue fazer uma boa reportagem sem ter ralado na apuração. “Não apurar é cometer o erro de reduzir o mundo”, completou. Para ela, a boa reportagem exige apuração profunda, entrega e investimento financeiro.
E a objetividade? Conhecida por seus textos sensíveis, e mesmo emotivos, Brum afirmou que o jornalista deve se reconhecer enquanto ser histórico inserido em um contexto cultural. “Não podemos ser arrogantes. É preciso se saber falho para ter o cuidado de errar o menos possível”, afirmou. Até mesmo o momento da escolha da pauta não é objetivo.
Quanto a isso, Brum contou que tem o cuidado de não se limitar pela audiência. A decisão dela em trabalhar com a história de vida de pessoas anônimas e com o desacontecimento – como ela nomeia o cotidiano – é uma decisão política. “Jornalistas são os historiadores do contemporâneo. Se nós deixamos de fora a maioria das pessoas desse documento que é o jornal, estamos dizendo para a futura geração que elas não foram importantes”, argumentou.
Questionada pela plateia sobre o fim do jornal impresso (sempre tem alguém para fazer esta pergunta!) Brum disse que não se preocupa. Assim como Bezerra havia nos dito quando afirmou não ser dona de fábrica de papel, mas produtora de notícia, a repórter gaúcha disse não se preocupar, pois a reportagem continua viva. “Na internet, as histórias têm o tamanho que precisam. Não existe mais a limitação do papel. Muita gente diz que o leitor online não gosta de ler, mas quando eu pergunto ‘onde está a pesquisa que mostra isso?’ ninguém me responde. Na minha coluna, vejo através dos dados do site que muitas pessoas leem entrevistas minhas que dariam 30 páginas impressas! Eu acho que o leitor gosta de ler o que respeita a inteligência dele”, concluiu.
Assim como na conversa com Linda Bezerra, a palestra de Eliane Brum deixou a certeza de que o bom jornalista, seja n’A Vida que Ninguém Vê ou nas páginas do líder baiano, precisa acreditar no poder que a narrativa tem para mudar a vida.