Esperando pela agitação

Esperando pela agitação

Depois de uma semana de palestras, voltar à redação foi um pouco estranho. Ainda não consegui decidir se gostei de ter ficado no segundo grupo, que teve a experiência da redação antes das conversas com os editores. Não que tenha existido algum problema quanto a isso, apenas foi esquisito estar de volta ao lugar em que vivi intensamente por uma semana e que, na semana seguinte, “desapareceu” de minha vida.
Por outro lado, preciso ser sincera e dizer que o que me incomodou um pouco foi que os meus dois últimos dias “oficiais” na redação não foram muito agitados. Não estou dizendo que não aprendi (porque aprendi muito), só estou dizendo que senti que faltou alguma coisa. Afinal, eram meus dois últimos dias… De qualquer forma, aproveitei para acumular energia para as próximas semanas.
Na quarta-feira, Oscar Valporto me fez uma proposta. “Já que você gosta de celebridades, cultura e entretenimento, por que não passa um tempo com as meninas da Vip?”, sugeriu, enquanto apontava para as mesas da equipe de Telma Avarenga, a colunista. Entretanto, preciso ser honesta, e dizer que a primeiro momento tive um pouco de preconceito com a coluna social. Afinal, o que é um colunista social, e qual o seu lugar de fala.
Não sei qual é a realidade dos outros, mas acho que o currículo de Telma Alvarenga fala por si só. Telma já escreveu para a editoria de política da revista Veja e para a Veja Rio, mas sempre gostou de cultura e comportamento. Acho que era nada menos que o curso natural das coisas, que acabasse se tornando o principal nome de uma coluna “de gente e variedades”, como gosta de chamar. Como eu e Dani viríamos a descobrir, a Vip, coluna de Telma Alvarenga com Perla Ribeiro e Priscila Borges no Correio*, está bem longe do estereótipo no qual são noticiados detalhes sobre a festa de 15 anos da filha de alguma socialite que nunca ouvimos falar.
“Não é futilidade”, ecoavam as três. Felizes, contaram sobre algumas das vezes em que alguma notícia publicada em sua coluna acabou “pautando” matérias em outros jornais. Afinal, como me explicou Perla, “a coluna é sobre a rotina da cidade”. Para que algo seja publicado na coluna, segundo as jornalistas mais elegantes do Correio*, tem que ter algum fator que mexa com a vida das pessoas. E apesar de não termos saído da redação, percebi que o trabalho das meninas é intenso.
As três ficam todo o tempo conversando por telefone com suas fontes, quase que incansavelmente. Passei muito tempo observando-as, com Dani, e o melhor foi poder entender como cada jornalista se relaciona com sua fonte. Minhas experiências acompanhando repórteres, até agora, encontraram perfis diferentes — nenhum que deve estar mais ou menos certo que outro, mas que revelam o estilo de cada jornalista.
Além disso, Perla e Priscila têm a mesma rotina de qualquer outro repórter do jornal — que inclui plantões nos fins de semana. E plantões significam, eventualmente, uma ou outra visita ao cemitério. E, particularmente, eu adorei isso. Como já disse em outro post, não gosto de cemitérios, claro. Ainda assim, isso só revela mais uma das qualidades que um jornalista precisa ter, e que eu admiro: não importa em que editoria você trabalha, nem o quanto é bom em seu trabalho, em algum momento o jornalista vai ter que fazer algo que nunca fez antes e que está totalmente fora de sua zona de conforto, e precisa estar apto a fazer bem.

A notícia que ficou para trás

No dia seguinte, o último dessa primeira fase de imersão na redação, acho que o meu maior aprendizado foi o de que erros podem surgir em qualquer lugar. Numa mesma tarde, eu e Hilla acompanhamos dois repórteres diferentes. Na primeira vez, devíamos seguir com Luana, da primeira safra de jornalistas de futuro, até a arquidiocese, onde haveria uma reunião com os professores estaduais em greve. Informações divergentes, no entanto, fizeram com que chegássemos ao lugar duas horas antes da tal reunião. Assim, tivemos que voltar à redação, onde ficamos passeando entre as mesas dos jornalistas, tentando encontrar algum espacinho para nós.
Foi quando Linda Bezerra nos apresentou a Alexandre Lyrio, que estava saindo para apurar uma matéria dentro de poucos instantes. Era uma reportagem sobre um caso bizarro que foi noticiado pelo jornal no fim do ano passado. A coisa toda acabou envolvendo delegacias e especialistas da UFBA, e a fonte queria entregar um laudo para o repórter. Acho que não devo dizer qual era o caso, uma vez que a pauta acabou caindo e nenhuma matéria sobre o assunto foi publicada no dia seguinte. Ainda assim, posso dizer que o laudo foi “inconclusivo”, algo que não deve ser aceito no jornalismo. Ou, pelo menos, não deve ser aceito nesse tipo de matéria — em que o jornal já noticiara o ocorrido (que se tornou velho), e que a matéria não traria nenhuma outra informação relevante para o leitor. São os tais critérios de noticiabilidade operando. Já não era sem tempo, já que escuto falar deles desde que entrei na faculdade.
Também nesse mesmo dia, a teoria do gatekeeper (“guardião do portal”) praticamente se materializou para mim. Não sou professora, mas posso tentar explicar que essa teoria, também chamada de “teoria da ação pessoal”, diz que o processo de seleção do que vai ser noticiado ou descartado pelo jornal é subjetivo, e que agentes — os gatekeepers — têm o poder de “deixar uma notícia passar pelo portão”. Por vezes, existem muitos portões e a notícia acaba ficando “presa” em algum deles. Logo, não é publicada.
A matéria que vimos Alexandre Lyrio apurar naquele dia já tinha passado por alguns gatekeepers. A falta de qualquer conclusão no único documento que pudesse justificar a publicação da notícia, entretanto, fez com que o último gatekeeper agisse. Quando saímos da reunião de fechamento naquela tarde (a qual somos gentilmente convidados a assistir, sempre que quisermos), Hilla e eu passamos na mesa de Alexandre. “E aí? Vai sair?”, perguntamos, nos referindo à matéria. Como ele (e nós, depois que ele dividira suas suspeitas conosco) já suspeitava, não. “O editor cortou”, resumiu. E o caso bizarro ficou para trás, preso em um dos portões.

Nós temos escutado muito sobre a importância das boas histórias; no entanto, ainda não sei se entendo o que isso significa. Por outro lado, preciso admitir: seja lá o que for uma boa história, algo me diz que aquela era uma. E não era só por ser bizarra. Mas, ah, isso acontece todos os dias. E, pelo que tenho visto e apreendido, parece que é jornalismo…