Uma redação, inúmeras rotinas

Uma redação, inúmeras rotinas

Há características comuns a todos os repórteres de uma redação. Há, no entanto, uma série delas que distanciam as rotinas desses profissionais tanto quanto se pode imaginar. Durante as últimas duas semanas acompanhei os trabalhos de Anderson, Jorge, Miro, Camila, Luana, Victor e Priscila. Acompanhei a apuração de pautas de esporte, cultura, comportamento, cidade e economia. Através da narração de algumas dessas experiências tentarei ilustrar a diferença entre as rotinas e abordagens dos repórteres e, claro, trazer algumas das minhas impressões.

No limite

A primeira pauta que acompanhei, do repórter Anderson Sotero, foi intrigante por me levar ao limite do jornalismo.  Para cobrir a morte de uma garota de 14 anos por bala perdida fomos ao IML, ao Hospital Ernesto Simões, e à Rua Nó do Pau, onde ela foi atingida. Mas foi só durante a conversa com a mãe de Rebeca, em frente à casa da família, que comecei a refletir sobre o papel do jornalismo e até onde ele pode ir. Cercada por familiares e amigos, a mãe de Rebeca conversou com Anderson e, logo depois, comigo e com Joana Oliveira, que também acompanhou essa apuração. Mas o que perguntar? Como não ultrapassar o limite do jornalismo? Como não se tornar sensacionalista?

Deparei-me com esse frágil limite entre jornalismo e sensacionalismo e não sabia dizer, naquele momento, de que lado eu estava. Anderson havia nos comentado sobre os cuidados que devemos ter ao conversar com um familiar nessa situação. Mesmo observando a cautelosa abordagem de Anderson e tendo o cuidado para não desrespeitar o luto da mãe de Rebeca, senti como se eu fosse o mais sensacionalista dos “repórteres” que criticamos na faculdade. Ao ler a matéria no dia seguinte, percebi o resultado de uma apuração cuidadosa e um grande respeito por parte de Anderson aos familiares de Rebeca. Não sei, no entanto, se terei a mesma capacidade e se conseguirei trabalhar nesse limiar sem nunca ultrapassá-lo.

No Fazendão

Outra surpresa que tive (de caráter completamente diferente) foi na cobertura de esporte. Saí da redação às 15h com a minha colega Hilla Santana para acompanhar o repórter Miro Palma na cobertura do treino do Bahia. Após uma longa viagem de carro chegamos ao Fazendão, local onde o time treina diariamente. De longe, assistimos à preparação do Bahia para o primeiro Ba-Vi da decisão do Baianão 2012. Até às 18h, quando começou a coletiva, jornalistas dos diferentes veículos de Salvador conversavam, discutiam e debatiam. O assunto, claro, não poderia ser outro: futebol.

Miro nos explicou que apenas dois jogadores falam na coletiva por dia durante cerca de dez minutos cada e, uma vez por semana, o treinador concede a entrevista, mas infelizmente aquele não era o dia de Falcão. Acompanhamos as entrevistas de Souza e Tite e voltamos à redação, onde chegamos por volta das 20h. Fiquei surpreso ao perceber que a coletiva dos jogadores deu base a duas matérias no jornal do dia seguinte. A rotina de um jornalista de esporte pode ser exaustiva para aqueles que não são aficionados pelo assunto, mas, maravilhosa para os que amam futebol.

Imagino que um desafio diário de Miro seja dar um tratamento diferenciado ao texto, já que as informações que obteve foram passadas a todos os veículos na coletiva de imprensa. Compreendi as diferenças de abordagem em uma coletiva e em uma exclusiva quando acompanhei uma entrevista da editoria de cultura. Enquanto na coletiva a relação com o entrevistado é distante, rápida e controlada por um assessor; na exclusiva, essa relação é próxima, direta e faz a entrevista se assemelhar a uma conversa.

No camarim

A exclusiva que acompanhei foi realizada pela repórter Camila Botto com Henry Ayala, o palhaço e acrobata do circo Tihany. Após chegarmos ao circo, esperamos cerca de 40 minutos antes do mágico do Tihany nos levar ao camarim do palhaço. Ao entrarmos, uma música latina tocava em um pequeno rádio ao lado de Henry, que se preparava em um pequeno espaço, cheio de fantasias, cores, luzes e maquiagens.

A rapidez do palhaço na confecção da sua máscara de tinta me prendeu a atenção durante toda a entrevista, tal qual a sua simpatia. A conversa, que daria origem a um perfil, durou cerca de vinte minutos. Henry, claramente acostumado à imprensa, respondeu às perguntas sem formalismos e com um sotaque misturado de quem já experimentou o mundo. A abordagem mais informal deixou o artista circense mais à vontade e permitiu que a conversa fluísse naturalmente.

No porto

O assunto a ser tratado com o entrevistado pode, no entanto, tornar a abordagem um verdadeiro desafio. O último dia em que acompanhei um repórter foi certamente o mais interessante nesse ponto. A ampliação do quebra-mar de Salvador seria anunciada pelo Ministro dos Portos, Leônidas Cristiano, e o repórter Victor Longo foi cobrir o anúncio objetivando repercutir com Cristiano algumas questões sobre o porto. A dificuldade se encontrava no teor dessas questões, que incluíam a demora do início das obras do porto de Salvador e a inferioridade deste em relação ao porto de Recife, por exemplo.

O paradoxo na abordagem se estabeleceu entre o interesse do Ministro em promover a ampliação do quebra-mar através da imprensa e o interesse da imprensa em ouvir o Ministro sobre os problemas do porto. Como vencer essa divergência de interesses e obter as informações desejadas? Além dessa dificuldade, a apuração ainda teve outros “obstáculos” que merecem ser citados.

Observei, junto a Darlan Caires, a atrasada chegada de Cristiano ao porto, assisti às poses dele para as câmeras e participei da improvisada “coletiva” no meio do pátio, com o Ministro no centro e seguranças, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e assessores em volta. Mais tarde, todos entraram em carros para chegar a uma extremidade do porto e começaram a caminhar para a extremidade oposta. Conclui que a impossibilidade de falar em particular com Cristiano provocaria a mesma homogeneização da informação que ocorreu no Fazendão.

Ver um grupo de assessores (inclusive em maior número do que os jornalistas) caminhando sob uma fina chuva e pisando na lama com seus sapatos sociais foi, no mínimo, cômico. Mais interessante ainda foi ouvir o Ministro fugindo das perguntas mais polêmicas e exaltando as reformas óbvias que o porto vai passar. A cena mais patética, no entanto, foi um dos assessores segurando um guarda-chuva apenas para o Ministro enquanto um punhado de jornalistas (inclusive nós) ainda permanecia em volta dele.

Por fim, um eufemismo para fechar a atrapalhada coletiva. “E agora para onde vamos?”, perguntou uma das jornalistas ainda em uma das extremidades do porto. A forma encontrada pelo assessor de imprensa para expulsar os repórteres que ainda persistiam atrás do Ministro foi “espirituosa”: “para onde vocês deixaram o carro”.

Impressões

No final das duas semanas percebi que a rotina do jornalista é tão incerta quanto a pauta que ele vai cobrir. A abordagem que o repórter assume se molda ao seu objetivo, ao momento, à fonte e ao tema. Apesar das diferenças e das incertezas que distanciam o dia-a-dia de cada profissional da redação, há características que são comuns a todos eles. Do porto ao camarim; do Fazendão à Rua Nó de Pau, os valores do jornalismo são imutáveis. Buscar a notícia de maneira ética é o que une a rotina dos repórteres que acompanhei e é o que pretendo fazer.