Na primeira semana em que meus colegas acompanharam os jornalistas do Correio* na cobertura de suas pautas, eu estive assistindo a palestras na Facom. Quando os encontrava, conversávamos, e a maioria pôde ver de perto a construção de uma matéria de segurança. Nesse primeiro momento, me pareceu que todos estiveram presentes em enterros de pessoas que não conheciam. A experiência passava longe de ser a mais esperada e os relatos não traziam ânimo ou entusiasmo nas vozes. Alguns jornalistas de futuro nunca tinham passado por um funeral e aquela era mais uma novidade entre as muitas que estamos vivendo nesse programa.
O pensamento que tive enquanto ouvia as histórias era de que eu já tinha ido a alguns enterros, então talvez fosse mais fácil. Talvez.
Primeira parada: Hospital Ernesto Simões
Quando cheguei à redação na terça (08), eu já sabia que iria seguir os passos convictos e corajosos do fotógrafo Almiro Lopes. Eu já havia conversado com ele algumas vezes, quando fui à redação do Correio*, e pelo que via, Almiro era o tipo de profissional que buscava a adrenalina em todos os seus dias de trabalho. Pautas policiais, de segurança, são as suas preferidas. Situações de confronto são o terreno fértil em que Almiro gosta de empunhar sua câmera.
Apesar de toda a dedicação desse fotógrafo em buscar notícias quentes, sempre correndo atrás do fato, o dia em que o acompanhei foi tranquilo. A primeira pauta nos levou ao Hospital Ernesto Simões, onde a esposa de um motorista de ônibus, que havia sido ferido no meio de uma troca de tiros, na Fazenda Grande, nos encontraria para fornecer a carteira de habilitação do marido. O motorista estava hospitalizado e Almiro iria fotografar o documento dele, para que houvesse uma foto de identificação da vítima.
Quando chegamos ao Hospital, nos dirigimos para o Posto da Polícia Militar, onde o policial responsável já era conhecido de Almiro e nos forneceu algumas informações sobre a vítima. Enquanto esperávamos a esposa do motorista, percebi, mais uma vez, a inquietação que caracteriza um repórter fotográfico. O que estava ao meu lado era um ótimo exemplo, ao ouvir algo de relevante na rádio policial, ele imediatamente informava à redação e pedia para que apurassem. Nossa espera naquele começo de tarde deve ter rendido umas três pautas, no mínimo. Além disso, não havia nenhum repórter conosco, por isso, quando a pessoa que esperávamos chegou, Almiro conversou rapidamente com ela, tentando extrair o máximo de informações sobre o estado de saúde do motorista e como ele havia sido ferido.
“Quando eu saio sozinho, tento pegar o máximo de informações que posso, para ajudar no trabalho dos repórteres”, explicou o fotógrafo.
Foto feita, esse foi o meu primeiro contato do dia com a dor.
“Lugar de repórter é na rua” – Almiro Lopes
Essa máxima me fez entender como Almiro vê o seu trabalho. Depois de sairmos do Hospital deveríamos seguir para a pauta seguinte, no Cemitério Bosque da Paz, onde ocorreria o funeral de outra vítima da troca de tiros realizada na Fazenda Grande do Retiro.
Almiro sugeriu que passássemos pelo Trobogy, pois ele havia ouvido que estava ocorrendo uma operação policial no bairro. O faro do fotógrafo não falhou. Quando passamos pelo campo de futebol do local, a movimentação dos moradores indicava que algo estava mesmo acontecendo. Um helicóptero da Polícia Militar me deixou alarmada, mas quando observei, ele já estava se afastando. E a atenção dos curiosos também já estava se dissipando.
A operação foi uma emboscada, para tentar prender um criminoso da região, conhecido como “Dieguinho”. No entanto, o procurado conseguiu escapar do cerco e os policiais já faziam o caminho de volta. Cansados, suados e decepcionados. A operação havia sido suspensa por “um superior”, mas a vontade dos policiais era continuar a busca e encerrar o trabalho com êxito. Como isso não ocorreu, nós também não tivemos muito o que fotografar.
Última parada: Cemitério Bosque da Paz
Eu, particularmente, gosto de cemitérios. Algumas vezes já pensei em como seria interessante realizar um ensaio fotográfico no ambiente das lápides e flores. Mas quando passei pela capela e vivi meu segundo contato com a dor, naquele dia, o céu nublado passou a representar meus pensamentos e emoções. Esse é, também, o nosso trabalho. Se aproximar da dor, sem se deixar tocar. Ser profissional também quer dizer um afastamento emocional. E só assim é possível levar boas fotos para a redação.
Almiro me confessou que não gostava muito de enterros, para em seguida dizer “hoje vou deixar por sua conta”. E isso foi suficiente para que eu voltasse a me concentrar em uma coisa: olhar as cenas que seguiram pelo meu visor. Foi através da lente que vi um caixão sendo carregado, amigos e familiares deixando a tristeza inundar o momento da saudade.
20 min foram o bastante, Almiro me chamou para irmos embora, e foi fácil partir. Abaixar a câmera como um pedido de desculpas, sair era o mesmo que tranquilizar, “não se preocupem, meu trabalho acabou, não vou mais incomodar”.