Sobre design e folhas de papel

Sobre design e folhas de papel

Engraçado é folhear meu bloco de notas. Eles dizem muito sobre minha rotina no programa. Não só pelo conteúdo, mas pela forma como as ideias e palavras estão organizadas. Alternadas entre folhas disciplinadas que obedecem ao espaço das linhas e folhas cheias de rabiscos cercadas por palavras e ideias, a rotina formadora do programa vai sendo modelada e registrada. As folhas mais agitadas, claro, são dos dias agitados. Já as organizadas são de dias calmos, dias não menos essenciais. É justo através dessas folhas e da forma como as organizo e as preencho que me debato. Sim, o assunto é sobre design e folhas de papel.

Confesso que as folhas agitadas me incomodam mais. Uma folha de papel desorganizada é como um desrespeito às leis da diagramação e do design. É justificável que no dia a dia da redação, da entrevista, do momento importante da reportagem, esses critérios sejam colocados de lado por um instante. Até porque ao preenchermos essas tais folhas, estamos vivenciando o fato. O momento de organização visual é outro. No entanto, insisto, minha mania de diagramar folhas (inicialmente brancas) persiste até nessas horas de vivenciar os fatos. O design às vezes fala mais alto.

Durante alguns dias fui colocado ao lado de alguém que tem por ofício organizar as folhas brancas do jornal, só que em outra plataforma menos convencional que o papel. Por mais que soubesse da existência de outros diagramadores na redação, Morgana Lima – uma das diagramadoras do Jornal Correio* – foi a referência de design e diagramação durante os dias em que fui sombra dela. Meu trabalho era observar, perguntar, criticar, instigar. Meu bloco de notas fervilhou! Não apenas com informações relevantes sobre jornalismo gráfico como também informações técnicas como, por exemplo, os atalhos mais usados no programa na hora de diagramar. Anotei tudo em minhas folhas.

Fiquei imerso na redação tentando entender as muitas retrancas, esperas de foto cair, criação de fios, a diferenciação entre caixas de textos e caixa de cor. Envolvido com o mundo gráfico, o tempo também passava rápido. As coisas no jornal, na verdade, têm que ser rápidas. Acompanhei Morgana na criação de uma ilustração para uma das colunas do Jornal. Aproximadamente 25 minutos foi o tempo total de criação da ilustração. Eu, inimigo do tempo, questionei como em tão pouco tempo ela conseguia pensar, criar e finalizar a peça gráfica. A resposta foi simples: “O importante é ter a ideia”. Quando se tem a ideia na cabeça, tem tudo!

Meio inseguro e ainda pouco íntimo da diagramação para o meio impresso questionei também sobre o processo. Eu queria realmente entender o esqueleto gráfico do jornal. Morgana conta que diagramar jornal é simples quando se entende o modo de fazer do design. “Quando você cria um cartaz inevitavelmente você tem também que diagramar as informações”, conta. É na verdade o mesmo processo de criação. Sempre. Os únicos requisitos são criar à base da criatividade e pensar de acordo a plataforma de destino.

Os dias ao lado de Morgana no Jornal me fizeram lembrar muito sobre mim. Alfabetizado em criação gráfica pelo Corel Draw, eu relembrava a similaridade e familiaridade que é ao ver alguém abrir o programa para encarar uma página em branco. A missão de preencher a folha branca é o desafio diário do designer. Aliás, não apenas preencher, mas criar. Depois dos dias de laboratório ao lado de Morgana as folhas do bloco de notas do programa, por mais paradoxal que seja, ficaram mais agitadas. Mais ideias apareceram. Agora, os versos das folhas em branco também são preenchidos por desenhos, as ideias permeiam o verso liso das folhas de papel independente do formato.

Deixemos de lado o bloqueio criativo, que venham muitos brainstorms e, claro, criação gráfica. Desce mais uma folha branca aí!

Por Darlan Caires