Gravadores ambulantes

Gravadores ambulantes

Saber que o dia de hoje nunca será como o de amanhã é o grande feeling do jornalismo. E de fato nunca é igual. Desde que ingressei na rotina do Correio*, acompanhando os repórteres dentro ou fora da redação, percebo quantas possibilidades e quão vasto é produzir informação.

“Qual a pauta de hoje?”, perguntei a Anderson Sotero quando ele chegava para mais um dia de trabalho. A resposta descontraída me surpreendeu: Não faço ideia, vou ver agora. A monotonia não tem vez para uma profissão que tem como sua matéria prima a vida da cidade, afinal, a notícia não para de acontecer.

Nas vezes em que pude desfrutar da apuração na redação, conversei com alguns repórteres e percebi a habilidade e a atenção deles em coletar informações à distância. Alguns se desdobravam para aliar os dedos soltos no teclado do computador à informação recebida pelo telefone. Algo semelhante acontecia na rua. As mãos que seguravam a caneta e firmavam o bloquinho pareciam nunca dar conta de tanta informação importante. Entrevistados, interessados ou não em colaborar, sempre terão ouvidos atentos a qualquer declaração que possa resultar numa boa aspas, ou quem sabe numa boa notícia.

Em meio a tanta aprendizagem a olho nu, me perguntava: Por que eles não usam gravador? Mas eu mesma respondi ao meu questionamento estúpido. Não que esse instrumento não seja de incomensurável valia para a prática jornalística. Mas, que deadline permite tempo para se ouvir e decupar um áudio, compilar as informações e transformá-las num texto que deve ser enviado para a gráfica a tempo de estar no jornal do dia seguinte? A eficiência é o carro chefe, pois tudo isso é feito numa agilidade surreal com o compromisso de se fazer algo bem feito para que não cause dano a nenhuma das partes: nem à fonte, nem ao repórter, nem ao jornal, nem à sociedade.

Quem conta um conto aumenta um ponto

Mas o gravador sempre será aquele instrumento coringa, que garantirá seu sono tranquilo à noite na certeza de que nada vai dar errado. Lembro-me de Jairo enfatizando quão valiosa é a prova de uma gravação. Lembro-me também das pérolas jornalísticas contadas pelo jornalista Marcelo Beraba na aula inaugural do Programa. Sempre existe aquele folclore do repórter que grava na mente, ou aquele velho feedback que eles dão aos editores: “Não falou, mas pensou” (sobre o entrevistado).

 Na ativa

Foto: Lorena Vinturini

Desde a palestra de Ana Santiago fiquei curiosa para participar de uma apuração na seção de economia, da qual ela é editora. Isso porque tudo que envolve cálculos numéricos não precisa fazer muito esforço para assustar, mas Ana soube “vender seu peixe” e conquistou todos os jornalistas de futuro que não tinham interesse na área, inclusive a mim.

Enfim chegou o dia, na companhia da jornalista Priscila Chammas. A pauta foi sobre um evento que pretende discutir a Bahia nos ambitos da infraestrutura, sustentabilidade, agronegócio e turismo. Entendi o caráter dessa editoria no jornal, que se afasta da produção de informação maçante e procura ampliar a economia vinculando-a a uma abordagem atual e que de fato sirva e edifique ao leitor.

Atenta, acompanhei Priscila durante as entrevistas que ela fez a alguns dos importantes investidores do evento. Novamente pensava que um gravadorzinho não cairia mal, principalmente quando me deparei com uma dificuldade básica: minha caneta falhou e eu não tinha uma reserva. Rabiscava o cantinho do papel e escrevia de novo, rabiscava de novo e escrevia por cima. Seria um constrangimento se fosse à vera.

Na volta tive a oportunidade de junto à minha colega Rita de Cássia acompanhar Mariana Caldas numa pauta para o caderno semanal Bazar e Cia. E surgiu mais um elemento surpresa, o gravador não funcionou. É a rotina dando lugar à competência jornalística diante de imprevistos.

Lição

Todos os dias, nós jornalistas (sim, porque estou me formando para isso e já me sinto a tal), convocamos o cotidiano para alimentar nossa performance. O tempo não nos espera e atrás dele corremos desenfreados. Aprendemos na faculdade que nossa função é servir à sociedade e lhes informar sobre tudo o que acontece nos lugares onde os leitores não podem estar. Isso é verdade, já que nenhum deles é onipresente. Pasme, nós jornalistas, esquecemos que também não, mas temos que ser. Afinal, “a notícia não morre e a pauta é o coração de uma redação”, como costuma dizer Linda Bezerra.

Talvez sejamos uma espécie de gravadores ambulantes, com todos os sentidos apurados assimilando tudo e tentando reproduzir um relato sem ruídos. Dar o máximo para ser coerente e serviente.  Será sempre o “hoje correndo atrás do amanhã e depois”, como cantado por Nação Zumbi.