Quando o circo nos chama

Quando o circo nos chama

Foi impossível ler a última postagem de Thais e não ser contagiada pela energia circense, cruzei os dedos e pensei “tomara que o circo me chame”. E, surpreendentemente, ou nem tanto, considerando que neste momento temos três circos na cidade, a magia do espetáculo me chamou para a minha primeira pauta acompanhando um fotojornalista do Correio*.

Na quarta (02), quando cheguei à redação para a minha primeira missão nas ruas, Linda Bezerra, Chefe de Reportagem, me encaminhou para Sora Maia, a Editora de Fotografia da manhã. Diferente do destino dos meus colegas, quem definiria o meu caminho seria Sora, e não Linda. Não precisei esperar para que uma palavra me mostrasse que o meu pedido se tornaria minha realidade, “acrobata”.

Foi assim que Sora me explicou rapidamente qual era a pauta: um acrobata do Circo Tihany iria atravessar o espaço entre o Elevador Lacerda e a sede da Prefeitura Municipal de Salvador em um cabo de aço. A altura? 72 metros! Inicialmente, pensávamos que a travessia não teria proteção e um pensamento rápido invadiu as ideias de quem iria fazer a cobertura, “e se ele cair?”. Mas a intenção de um espetáculo não é decepcionar e sim, surpreender. Com habilidade e equilíbrio, o venezuelano Henry conseguiu seu êxito. Como tudo aconteceu? Vamos por partes…

Imprensa para todos os meios

Ainda na redação fui apresentada a Evandro Veiga, o fotógrafo que faria a cobertura da travessia. Naquele momento, eu ainda não sabia que estava fazendo parte de um dia especial para Evandro, naquela quarta, ele era um campeão. À noite, ele seria o fotógrafo escolhido por uma premiação interna da Rede Bahia como o autor da melhor fotografia do ano. Simples e descontraído, Evandro parecia sem graça quando os colegas brincavam sobre o assunto, mas quando me contou sobre o prêmio que receberia, foi impossível esconder o orgulho que sentia, mesmo com suas risadas discretas e seu olhar inquieto.

Inquietação: foi esse o conselho que recebi de Evandro ao chegarmos na Prefeitura. “Fique em movimento, não pare. Vá olhando tudo e procurando sempre um bom lugar”. Eu nunca havia entrado no vão aberto do prédio sede da Prefeitura, mas familiaridade com o local não faria diferença naquele momento. Mesmo que eu o frequentasse, ele não estaria reconhecível na quarta. O vão se tornou palco do espetáculo que estava marcado para as 14h30, mesmo sem tenda, o circo estava presente em seus personagens. Fantasiados, os integrantes do Tihany compareceram ao local para apoiar o amigo Henry.

Henry Ayala

Além do público e dos artistas, fotógrafos, cinegrafistas e repórteres encheram o espaço, disputando atenção e um bom ângulo. Rádio, televisão e jornais impressos, havia jornalistas de todos os meios, comunicação para todos os lados. A primeira sensação, que se empurrava dentro de mim, misturada a empolgação e o interesse, eu não conseguia nomear, mas no fim do dia, a fotógrafa Angeluci Figueirêdo revelou-me com rapidez e simplicidade, “no primeiro dia a gente se sente meio peixe fora d’água, nós sabemos como fazer, mas de repente a gente acha que não sabe nada”.

 

O momento

Quando Henry iniciou sua travessia, vivenciei a sensação de rapidez que a grande expectativa atribui aos momentos, quando eles finalmente acontecem. Tudo se passa tão rápido que tem que estar pensado antes, na hora, é só clicar, com agilidade. O forte contraluz do sol da tarde, que estava a nossa direita, em cima do mar, ajudaria ou atrapalharia? Só o fotógrafo poderia definir isso, e é preciso tirar o melhor e maior proveito da luz que se apresenta.

A ida...

... e a volta

Espera e nervosismo configuraram a agitação dos jornalistas enquanto Henry batia o recorde. Já disse que ele não atravessou sem proteção? A prefeitura não permitiu essa aventura arriscada e o obrigou a fazer sua travessia com uma corda presa a sua cintura, caso algo não saísse como o planejado, o acrobata estaria seguro.

De volta ao chão, a corrida das lentes e microfones recomeçou, todos queriam um lugar na linha de frente, cara a cara com Henry, buscando o melhor ângulo para registrar as comemorações. Nesta hora, eu já me sentia mais integrada aquele mar, enquanto peixe, agora eu seguia na correnteza da notícia. Em bons momentos estive no espaço disputado, tão próxima das cenas que nem minha 18 mm conseguia enquadrar todos os artistas que posavam.

A agitação depois da travessia

Henry Ayala

Comemoração com os artistas do Tihany

De volta

O retorno é uma hora de grande ansiedade, é uma espera de agonia. Há a satisfação e o alívio da pauta que já foi cumprida, mas será que ficou bom? Isso só dá pra saber ao chegar à redação. E chegando ao jornal, fui rapidamente incorporada a rotina dos fotojornalistas, o Editor de Fotografia, Márcio Costa, me orientou e ensinou todos os procedimentos para descarregar as fotos, selecionar as melhores e adicionar uma descrição às imagens.

Trabalho feito, missão cumprida, olhos abertos ao que é possível observar antes de ir embora. Era dia de jogo, e o jornal só fecharia depois do resultado. O clima descontraído de um ambiente onde o trabalho é uma surpresa diária pode ser apaixonante, em um dia é o circo que nos chama, mas no dia seguinte a única garantia que temos é que mais uma pauta, estará à espera.