Pés na rua

Pés na rua

“Ah, já chegaram. Ótimo.” Foi essa a saudação que Linda Bezerra dirigiu a mim e aos meus colegas na segunda-feira, 23 de abril, quando entramos no Correio*.  Nesse dia pude finalmente saciar um pouco a ânsia de vivenciar a rotina de uma redação. E foi um começo rápido: não chegamos a passar da recepção e já recebemos as pautas a serem apuradas naquela tarde, entre elas, a cobertura da festa em homenagem a São Jorge, a qual logo me voluntariei para acompanhar.

Em companhia de Alexandro Mota e Lorena Vinturini (dois “ex-jornalistas de futuro”), segui para a igreja de São Jorge, no bairro do Jardim Cruzeiro, onde aconteciam as celebrações. Ainda tentando me habituar à situação, me contentei em observar, inicialmente, a forma com que o repórter e a fotógrafa abordavam as pessoas, convidando-as a conversar. Um pouco depois, me senti à vontade para arriscar eu mesma algumas entrevistas.

O mais interessante foi perceber a variedade de personagens com os quais nos deparamos naquele dia: desde famílias levando recém-nascidos para uma bênção, até figuras como um vendedor ambulante que nos abordou com a quase intimação: “Podem me dar R$ 20,00 que eu falo o que vocês quiserem nessa entrevista”.

No caminho de volta à redação, fui tentando organizar as informações mentalmente, planejando ao menos dar alguns pitacos ousados na construção do texto, que era a proposta para a página 3. No entanto, muito generoso e paciente, Alexandro me permitiu não só opinar, mas também escrever alguns trechos da matéria.

Foi também com essa primeira experiência que pude enxergar de fato a relação produtiva e empresarial sob a qual um impresso se mantém: apesar de aprendermos já na faculdade os “impasses” da lógica comercial, confesso o meu desapontamento ao abrir o jornal no dia seguinte e me deparar com um anúncio publicitário de página inteira no local destinado ao “Salve Jorge!”.

Dias seguintes

No dia seguinte, desejosa de mais uma vez por os pés nas ruas, fui surpreendida por um planejamento diferente: deveria apurar da redação, junto com Luana Ribeiro (outra “ex-jornalista de futuro”), informações sobre um acidente rodoviário que resultou na morte de cinco jovens. O aprendizado, mais uma vez, partiu primeiro da observação e fiquei impressionada ao ver como Luana, uma moça tão jovem quanto eu e já aparentando certa experiência, se desdobrava ao ligar para uma e outra fontes oficiais, fazendo malabarismo com as várias informações.

Na quinta-feira, 26, tive o prazer de conhecer melhor uma editoria em que ainda não me passou pela cabeça atuar. Eu e Priscila Chammas fomos “bater perna” na Baixa dos Sapateiros, para traçar um perfil do comércio local e de seus consumidores, em uma matéria de economia e comportamento. Mais uma vez me deparei com figuras das mais diversas, desde vendedoras ávidas por serem ouvidas até consumidores esquivos.

Mãos atadas

Mas a maior experiência veio na segunda-feira, dia 30, véspera de feriado, dia em que resolvi aparecer despretensiosamente na redação, sem esperar nenhum acontecimento muito especial. Comecei a semana entrando um pouco em contato com uma das minhas áreas de interesse profissional: o jornalismo de áreas de conflito. Eu e Renato Alban acompanhamos o repórter Anderson Sotero na apuração sobre a morte de uma garota de 14 anos, que teria sido atingida por balas perdidas em uma festa. Ao mesmo tempo empolgada (e ainda me sinto meio estranha por um tema tão mórbido ter me causado tal sensação. Deve ser a tal veia jornalística…) e um pouco apreensiva, fui com o trio de rapazes (contando o simpaticíssimo motorista, Ronaldo) primeiro ao IML e depois ao hospital em que a menina havia sido internada.

Após a coleta das informações iniciais, partimos em direção ao local que marcarei na memória como minha primeira cena de crime, sem rastros de sangue, mas com presença de viaturas e policiais. Apesar de termos conseguido falar com o delegado Antônio Luciano, responsável pelas investigações, tivemos grande dificuldade em obter depoimentos dos moradores da região. A “lei do silêncio” e do medo imperam, de fato, em lugares em que a violência e a taxa de criminalidade são altas, como é o caso da Fazenda Grande do Retiro, e chegam a dificultar a apuração. Apesar da inexperiência nesse tipo de situação, eu e Renato ainda tentamos conversar com algumas pessoas, porém em vão.

Ao saber que falaríamos com a mãe da vítima, veio o primeiro frio na barriga. Como entrevistar uma mãe que, apenas horas antes, havia perdido uma filha de 14 anos? Como obter informação sem desrespeitar o sentimento de luto e sem fragilizar ainda mais essa mãe? Encontramos a senhora ainda prestando um depoimento emocionado ao delegado, na frente de sua casa.  E foi aí que surgiu a sensação de mãos atadas. Não senti ameaça de lágrimas, mas receei me sentir um abutre.

Depois de conversar com Anderson, que se afastou para entrevistar outra fonte, a mãe da vítima permitiu espaço para que eu e Renato nos aproximássemos. Ainda sem saber o que e como dizer, resolvemos perguntar (talvez ingenuamente, talvez cretinamente, não sei) sobre o perfil de sua filha, como ela era, do que gostava…

E, em um único dia, voltei para casa com mais reflexões do que as que me renderam os quase dois anos de faculdade sobre a profissão que escolhi exercer. A ética jornalística aplicada na prática é uma lição que nem mil Kants explicariam em livros, creio que seja aprendida na rotina mesmo. Estou um pouco mais certa do caminho que escolhi e acredito na possibilidade de percorrê-lo sem pairar sobre a desgraça alheia como a sombra de um urubu.