Do cemitério para o circo

Do cemitério para o circo

Na quarta-feira, nós (Dani, Darlan e eu) encontramos Linda Bezerra em seu lugar habitual, sentada em frente ao seu computador, incansável. Linda nos convidou a sentar também – queria saber o que estávamos achando das saídas diárias. Coisa rápida, sem firula. Tão logo dissemos, ela apresentou as pautas de cada um. “Hoje, você é quem vai para um enterro”, falou para mim, com uma expressão engraçada. Dani e Darlan já tinham tido suas experiências (traumáticas, talvez?) com enterros. Mas, ah, todo jornalista já deve ter passado por uns bons enterros, nem que tenha sido só quando estagiário. Agora era minha vez.

O caso era conhecido – a matéria seria uma “suíte” da que já havia sido publicada no dia anterior, sobre um taxista morto em uma das avenidas mais movimentadas de Salvador. O enterro seria no Cemitério Campo Santo, bem perto da redação, e eu acompanharia Alexandro Mota, um dos jornalistas de futuro da turma de 2011, agora estagiário do Correio*. No dia anterior, que passei toda a tarde e parte da noite na Assembleia Legislativa, já tinha acompanhado Alexandro, o que me deixou mais à vontade, já que o assunto não era leve. O motorista nos deixou no cemitério, onde o fotógrafo Miro Lopes, mais conhecido como Maguila, já estava há algum tempo.

Era meu primeiro enterro. Minha ideia de velório era produto das séries dramáticas americanas, nas quais todos que são assassinados conseguem encontrar a justiça, porque têm dezenas de agentes de polícia bem treinados e uma equipe de análise forense invejável. Ou seja, nada que pudesse ter me preparado para o que encontrei. Uma estimativa de que duzentas pessoas estavam no local seria razoável. Alexandro me explicou que, normalmente, o número de pessoas em um funeral é bem menor que aquele.

O grande problema de uma situação assim é a abordagem das fontes. O jornalista não pode ser invasivo, tem que ter alguma sensibilidade para com a condição de quem está ali, que, geralmente, é frágil. Se não abordarmos as fontes com cuidado, respeitando sua dor, vamos acabar atravessando aquela linha tênue que separa o jornalismo sério daquele que “se você espremer as páginas do jornal, escorre sangue”, como um conhecido meu gosta de definir.

E esse foi o nosso maior obstáculo lá, porque ninguém parecia muito aberto a falar qualquer coisa. Pelo contrário, algumas pessoas até nos olhavam de um jeito pouco amistoso, quando percebiam que éramos jornalistas (talvez, porque, como ficamos sabendo depois, a família tinha ficado chateada com um determinado veículo de comunicação que alegou que a vítima tinha envolvimento com o tráfico de drogas).

Quase uma hora depois que chegamos, encontramos um senhor que indicou um primo da vítima, e eu observei enquanto Alexandro conversava com o rapaz, explicando de onde era. Ele se recusou a falar conosco, esquivando-se enquanto murmurava que não tinha “nada a declarar”. Aprendi que não devemos insistir (não que eu tenha pretendido fazer isso, em qualquer momento). Sempre soube que “não falar” é um direito da fonte e deve ser respeitado, principalmente em um caso como esse.

Continuamos ainda no Campo Santo, observando – jornalismo também é observação – até o momento do enterro, às 16h30. Eu já estava esperando muita comoção para essa parte, que é quando algumas pessoas realmente percebem que alguém não existe mais, nem vai voltar a existir. A diferença aqui é que o taxista era adepto de alguma religião afro-brasileira – tal como a maioria dos presentes, que não vestia preto, mas branco -, a qual não sou capaz de identificar, por ser ignorante no assunto. E enquanto o caixão era carregado, cerca de vinte ou trinta pessoas, pelo menos, começaram com rituais de incorporação, dançando e emitindo sons. Eu nunca tinha presenciado nada parecido antes, e minha falta de conhecimento fez com que eu nunca esperasse encontrar uma cerimônia assim em um velório. Mas não fui a única; mesmo Alexandro, que eu passei a considerar quase um especialista em cobrir enterros, me contou que nunca tinha visto aquilo.

Quando o motorista veio nos buscar, Dani estava no carro, vinda de sua própria cobertura. Fomos direto para a redação, e eu preciso dizer que me senti aliviada. Sei que foi uma tarde de muito aprendizado, mas a minha sensação, ao final do dia, era a de que isso vai ser sempre algo que apesar de eu reconhecer que é preciso fazer, nunca vou gostar nem um pouco. Isso não significa, no entanto, que nós vamos fazer uma cobertura “meia-boca” só porque não gostamos de algo. Aprendi que devo buscar sempre a mesma qualidade na apuração, ainda que o assunto me deixe desconfortável, ou que acabe resultando em uma nota de vinte linhas, no canto da página.

E, por falar nisso, acabei ganhando a oportunidade de publicar algumas linhas na matéria do Alexandro. Foram, literalmente, “algumas linhas”, do que eles chamam de “relembre o caso”. Porém, não mudou a minha alegria (e surpresa) no dia seguinte, quando li o jornal.

A tenda mágica

Tudo que eu mais queria, na quinta-feira, era uma pauta mais “leve” do que a do dia anterior, que me fizesse sentir um pouco melhor do clima ruim de uma cerimônia fúnebre. De início, fui designada para ajudar Alexandro no que ele precisasse com uma pauta sobre as curvas mais perigosas das estradas baianas. A dificuldade de encontrar estatísticas e informações reunidas em um único lugar nos deixaria fazendo telefonemas para os postos das rodovias do estado durante toda a tarde. Lá pelas três, quando eu já estava entretida, Linda Bezerra me deu o melhor presente que eu poderia escolher: uma pauta de jornalismo cultural.

Infelizmente, existem bem menos pautas de jornalismo cultural que exijam sair da redação do que na editoria de cidade, onde eu estava até então, por exemplo. Mas essa não era qualquer pauta: era um convite para assistirmos ao levantamento da tenda do Cirque du Soleil, que começa as apresentações em Salvador essa semana. Para completar, é no jornalismo cultural que eu pretendo trabalhar. Então, não pude ficar mais feliz. Conheci Gabriel, o repórter que faria a reportagem, e encontrei Rafael Martins, o fotógrafo do meu primeiro dia, da candidatura de ACM Neto, ambos formados pela mesma Facom em que eu estudo.

Quando chegamos ao Parque de Exposições, a tenda (ou “big top”, sua parte mais pesada) estava prestes a ser suspensa. Tenho algum tipo de fascinação oculta pela magia do circo, então, ainda não sei definir o que realmente pensei quando vi dezenas de pessoas “criando” aquela estrutura. Outros jornalistas e fotógrafos estavam ali, mas me senti feliz quando recebi o mesmo passe de imprensa que todos os presentes. “O meu primeiro passe de imprensa”, pensei comigo, feliz e deslumbrada. Foi quase como ter a chave de um portal – que me permitia conhecer os bastidores de algo que nunca imaginei que um dia teria a chance de conhecer. O meu passe não poderia ter me levado a um lugar melhor.

Meu passe de imprensa. Não tem a qualidade das fotos de Tayse e Renato, porque veio diretamente do meu Instagram, mas é só para ilustrar. 

Pequenas entrevistas coletivas, apresentação dos presentes e um tour pelos bastidores da estrutura de um show que já dura 10 anos foram responsáveis pelo meu melhor dia na redação do Correio.

Dois dias tão opostos vindos em sequência me mostraram que é preciso estar pronto para qualquer coisa. A qualquer momento, o jornalista pode ir parar no cemitério (digo isso da melhor forma possível, se é que ela existe). Mas eu fico na esperança de que o circo nos chame sempre.