Decidi que seria jornalista com 12 anos, na primeira vez que entrei em uma redação. A paixão pela informação, pela comunicação e pela escrita já existia e se fortificou com o tempo, mas o que me fez pensar em ser jornalista naquele momento foi, de fato, a correria da redação. Desde então, não faltaram conselhos para eu deixar de lado essa louca ideia e tentar outro futuro.
Se apenas a infantil paixão pela rotina de repórter tivesse se mantido, certamente já teria desistido de ser jornalista, mas um fator muito mais sedutor apareceu no meio do caminho. A confirmação do que parecia um devaneio para muitos veio quando enxerguei na profissão uma possibilidade de sair da minha zona de conforto, confrontar a realidade e, principalmente, desvendá-la.
Começava a acreditar que tão ingênuo quanto pensar em ser jornalista pela correria da redação seria achar que, nessa profissão, teria espaço para investigar e fiscalizar o que há de errado na sociedade. Jairo Costa Júnior, repórter especial do Correio*, provou-me o contrário. Em conversa com o grupo do Jornalista de Futuro na última terça, Jairo, que também é responsável pela cobertura de política do jornal e escreve uma coluna na área, contou aos estudantes sobre os bastidores da cobertura política.
“Conhecer bem as estruturas do poder” foi a primeira dica do jornalista para quem quer trabalhar na área. O repórter tem que entender como funciona a máquina estatal para investigá-la. Ir às câmaras também é imprescindível. “Na prática do jornalismo político, sair da redação é muito importante”, lembra Jairo. As conversas dos corredores dos órgãos podem ser muito reveladoras.
O jornalista e o político
O jornalista da área mantém uma relação de interesse com os políticos. Ele deve saber com quem está tratando. “Não tem criança nesse meio”, alerta Jairo. Nas matérias de política, em especial as de denúncia, o repórter deve recolher todas as provas. “Gravem tudo”, aconselha o editor do Correio*. É comum os políticos negarem declarações que deram em entrevistas, portanto o jornalista tem que se certificar de que cada informação publicada pode ser provada. “Os políticos sofrem de dois maus: surdez temporária e amnésia”, brinca.
Como lembrou Jairo, o jornalista da área deve estar muito bem informado para entrevistar os políticos: “o jornalista de política tem que saber o que está na crista da onda”. A leitura de colunas, blogs, jornais, matérias de agência, Diário Oficial e material de assessorias de imprensa é tarefa diária de Jairo Costa júnior.
Turma da pesada
“Perguntas maliciosas” também foram feitas ao editor. “Você não tem medo de morrer?”, questionou um dos jornalistas de futuro. Com muito bom humor, Jairo citou algumas figuras que “você só bate se o tacape for grosso”. E o “tacape” do jornalismo é, lógico, a informação. O editor reforçou a necessidade de conferir cada informação colocada na reportagem
Jairo afirmou ter uma “obsessão pelo equilíbrio”: “dou o mesmo espaço para os dois lados”. As empresas jornalísticas obviamente têm seus interesses e ideologias, mas sempre há espaço para o bom jornalismo. Questionado sobre os jornais e revistas que assumem um “lado”, como os franceses Le Monde e Le Figaro e a brasileira de esquerda Carta Capital, o repórter opinou: “o problema é fazer matérias capengas, independente do lado”. Para Jairo, o ideal é que o jornalista deixe suas ideologias fora da redação: “vou criticar [o que está errado], não importa o partido”.