Uni, duni, tê.

Uni, duni, tê.

Na segunda-feira (23), nossos coordenadores no Correio* e na Facom nos dividiram em dois grupos. O primeiro daria continuidade às palestras, enquanto o segundo começaria, de fato, a imersão na redação do jornal. A divisão aleatória fez com que eu acabasse como parte do segundo grupo, com outros três colegas, e também fez com que minha apreensão crescesse.

Quando chegamos na redação, fomos recebidos por dois repórteres que saíam. Simpáticos, responderam ao nosso “boa tarde” em tom de brincadeira. “Boa tarde, gente. Se bem que, quando vocês entrarem aí, não sei se vão ter uma boa tarde”, disseram, aos risos, aqueles que, ate então, eram dois estranhos. Assim que os repórteres saíram, a chefe de reportagem, Linda Bezerra, veio até mim e os colegas com a mesma simpatia e paciência com que se mostrou na semana passada, quando nos deu uma palestra. Linda começou a nos explicar qual seria a nossa rotina naquele dia: acompanhar repórteres, enquanto estivessem apurando.

Quando Linda perguntou quem tinha interesse em cobrir política, nenhum dos quatro se manifestou. Aparentemente, sem nenhum incomodo pelo silêncio que se seguiu, Linda decidiu que teríamos que ver pela sorte. “Uni, duni, tê. Minha escolhida é você” (que, por acaso, era eu). Sem perder tempo ela sinalizou para que acompanhasse seus passos rápidos, enquanto me deixava a par dos acontecimentos daquele dia: era o lançamento da candidatura de Antônio Carlos Magalhães Neto, do Democratas, a prefeito de Salvador. Quando chegamos ao estacionamento, um fotógrafo e os dois repórteres com quem cruzamos na entrada do jornal esperavam pelo motorista que nos levaria ao hotel Fiesta, onde aconteceria o evento.

Linda me apresentou a Jairo Júnior e Rafael Rodrigues, os repórteres, e a Rafael Martins, o fotógrafo – que eu não conhecia pelo nome, mas cujo rosto era familiar, graças aos corredores da Facom. Jairo, editor de política, pareceu um pouco preocupado em ter que cuidar de uma aprendiz em um dia tão corrido, já que, além do grande evento, o jornal teria um “fechamento recuado” (o que, como descobri depois, significava que até as 20h a edição da terça-feira deveria estar pronta e ser enviada para a gráfica).

“Não garanto poder te dar atenção hoje”, disse, com um tom de quem estava pedindo sinceras desculpas. Ele não precisaria, na verdade. Eu sabia disso, e Linda confirmou. “Ela só vai observar você”, explicou, para mim e para ele. Jornalismo também é observação. Aliás, muito do jornalismo é observação. E, assim, partimos, no carro do Correio*, em direção ao local do evento.

No saguão de entrada do salão de convenções do hotel, jornalistas de todos os veículos de comunicação começavam a chegar. E eu me transformei, por algumas horas, na sombra dos meus repórteres. Só naquele começo, percebi que muito da reportagem estava sendo construído nas conversas informais entre repórteres e os presentes. “O mais importante são essas conversas de bastidores”, contou Rafael-repórter. Jairo, que trabalha há dez anos no noticiário de política, endossou. “É aqui que a gente filtra muita coisa”, disse.

Devo ter escutado algumas declarações “em off”, mas o que mais ficou marcado para mim foi o medo que algumas dessas fontes pareceram ter do meu bloquinho. Uma jovem desconhecida, portando papel e caneta em um evento político e entreouvindo diálogos alheios não deve ser o sonho dos assessores. “Ela está com vocês?”, escutei uma das pessoas perguntar. “Sim, ela está com a gente”, responderam todos da equipe. Sim, eu estou com o Correio*.
Nas horas que seguiram, vi que os jornalistas não paravam de brotar, ostentando ternos Ralph Lauren ou tênis All Star e que todo político que chegava ao local era recebido por dezenas de microfones, gravadores e flashes. Também vi ACM Neto chegar, ovacionado por gritos femininos que chamavam pelo “Homem”. Foi aí, também, que me perdi de todos da equipe. Cada um saíra para apurar o que tinha de apurar, de modo que eu continuei fazendo o que vinha fazendo desde o início: observar e tentar absorver o acontecimento.

Não apenas observar os repórteres ao meu redor (já que eu tinha perdido os meus mestres), mas também reconhecer os personagens que estavam ali unicamente porque pareciam ter fé “no homem”. Duas mulheres, em direções opostas, classe social e estilos aparentemente distintos, me chamaram a atenção, em particular. Ambas eram quase tão baixinhas quanto eu, de modo que ficavam na ponta dos pés para enxergar algo. A primeira, uma senhora robusta e aloirada, vibrava ao escutar o discurso de cada político ilustre ali presente. “Eu quero ir lá para a frente, eu quero ver”, dizia para mim e para quem mais quisesse escutar. A outra, mais séria e com uma aparência quase masculinizada, só mantinha olhos ansiosos em direção ao palco. Ver essas mulheres me fez refletir sobre como aquilo significava coisa diferentes para cada um que estava ali – para elas, a chance de encontrar pessoas que pareciam admirar. Para mim, a primeira “cobertura” de um evento. Ainda que, tecnicamente, eu não estivesse cobrindo nada.

Quando voltávamos para a redação, com o motorista, Jair, tentando fazer mágica no trânsito eternamente congestionado de Salvador, acho que senti a pressão do fechamento – pelos repórteres. Eu estava a salvo, mas conseguia sentir a tensão deles, em especial de Jairo, com quem voltei. No auge de suas manobras, Jair, o motorista, soltou para mim: “Tá escrevendo aí, garota? Não viu nem um terço ainda!”. Não tinha visto mesmo.